Manhã de Sábado

•27/09/2014 • Deixe um Comentário

lapa

Embaixo dos arcos havia um corpo moribundo. O sujeito foi cair ao lado do posto da guarda civil e demorou horas para ser recolhido. Não havia qualquer indicação de quem ele era: um transeunte ou um vagabundo, não importava muito uma vez que fora transformando em uma pilha disforme de carne e ossos quebrados.

Nada acontece nas manhãs de sábado na Lapa. É um momento de descanso e preguiça. Na sexta, poucas horas antes, o burburinho e a folia duraram até o chegar do sol. E enquanto os eterno foliões sumiam em uma marcha fúnebre para suas camas, o bairro ia perdendo suas cores conforme o sol se fortalecia. O que sobrava era o cheiro acre de mijo, o calor do dia abafado e a tímida presença de turistas e trabalhadores que não se davam conta da enorme transformação que eram testemunhas.

No entanto, ao passar por aqueles arcos de manhã, perenemente esfumaçados, era possível perceber que ali, estatelado no chão, estava um indigente que era como a própria sexta-feira da Lapa: estapafúrdia e suja, alheia as suas limitações e crente em sua capacidade inata de voar. O corpo não era de um suicida depressivo, nem tão pouco um homicídio mal intencionado, ele era apenas uma ilusão de grandeza posta à prova. Dessas que a gente tem no bar da cachaça às cinco horas da manhã e acabam no café da manhã da padaria do bairro.

O corpo não chamava atenção, ele estava morto como o bairro. Toda manhã de sábado na Lapa é um velório a sua própria maneira.

Despedida à moda pirajuense

•10/09/2014 • Deixe um Comentário

Ela tinha um certo sorriso tímido, daqueles que são tão leves que quase não conseguem esquecer a tristeza interior. Seu corpo era meio de boneca, com proporções pequenas que me faziam pensar que ia quebrá-la. Havia também certo desdém em seu olhar, uma mistura de deboche com ceticismo que tanto acontece com pessoas que seguem há muito tempo no caminho de escolhas erradas.

De alguma maneira isso a consumia, seu tempo já era escasso e no que sobrava ela mergulhava no isolamento. Mas havia vida ali dentro, uma chama que queimava baixo em um corpo delicado, mas que de tempo em tempo deixava escapar lampejos de excitação. Eu me sentia um privilegiado em participar daqueles momentos, talvez por sua raridade ou talvez porque eu deixasse que o pessimismo dela me convencesse e fosse genuinamente surpreendido nessas ocasiões.

Ainda assim ela era a primeira pessoa que eu encontrei na cidade. Foi um momento um tanto estranho, pois a conheci como se já a conhecesse a vida toda, e na verdade esta era primeira vez que nos víamos. Já encontrei muitas pessoas sobre circunstâncias aleatórias, mas nunca como ela. Duas crianças praticamente criadas em ambientes opostos, à quilômetros de distância, mas que partilhavam tantas coisas em comum.

Conforme o tempo os afastou, o pensamento de encontra-la sempre passou pela minha cabeça. Quando o momento finalmente veio, nada realmente foi como esperado, se eu imaginei que seria algo épico e gigantesco, acabou se tornando um momento simples e íntimo entre dois velhos amigos.

A reunião durou pouco, os problemas rapidamente vieram à tona. A depressão nos consumia em alguma instância, mas ela funcionava de maneira oposta, enquanto eu mergulhava nas minhas relações sociais e evitava ficar sozinho a todo custo, ela se isolava. Talvez não fosse mesmo o momento certo, ou outra questão circunstancial.

Tudo que sei é que no fim, ela não aguentou mais e partiu. Foi a primeira pessoa que eu encontrei nessa cidade e de certa forma, acho que sempre vou me fazer lembrar dela ao caminhar por estes prédios. Fico feliz de finalmente ver que ela fez uma escolha de mudar sua vida, deixar um lugar que detestava e se cercar de amigos e familiares… o engraçado é que mais uma vez ela fez o oposto do que fiz, que no momento do maior aperto e dor, fugi para uma cidade estranha onde não conhecia ninguém.

É irônico, somos tão parecidos na forma que caminhamos para sentidos diferentes que penso que posso nunca mais encontra-la. Que nossos poucos momentos juntos pertenceram a mais um nefasto joguete do destino, que por pura malícia decidiu nos colocar no caminho um do outro no pequeno e breve momento que nos cruzamos indo para outra direção. Torço que a boa aventurança não faça morada fixa, e que nós dois possamos cruzar com ela, mesmo em pontos tão distantes um do outro.

Para a lápide à picadas

•13/08/2014 • Deixe um Comentário

Eles conversavam suavemente sobre temas sérios como a vida e morte. Havia tanto amor ali que estes assuntos pareciam seguros e superados, que mesmo que um avião caísse sobre suas cabeças, eles poderiam sair a contento da vida. Apesar da segurança trazida pela presença do outro, ela tinha os olhos marejados ao tocar no tema.

– Se eu morrer, por qualquer coisa, e se tivermos filhos que ainda são muito pequenos para entender qualquer coisa, por favor me prometa que você vai dizer que eu morri enfrentando um escorpião gigante!

– Oi? Um escorpião gigante? – dizia o rapaz, segurando o riso – Porque logo um escorpião?

A menina entrou no clima da brincadeira e respondeu de volta – o que poderia ser mais ameaçador e poderoso do que um escorpião gigante? As pessoas já morrem de medo deles quando os bixos só tem cinco centímetros, imagina uma versão de 5 metros?

– Ok, você me convenceu… Mas o que aconteceu com o escorpião depois que você morreu? Eu tenho que explicar porque a terra continua povoada por pessoas, não?

– Ah, isso é o de menos, eu posso morrer explodindo uma bomba no bicho, ou em qualquer outro tipo de ataque kamikaze que requeira uma ação semelhante. O que importa é que você conte isso e use o meu seguro de vida para construir uma estátua em bronze da heroína que salvou a terra…

E o papo continuou pela tarde a dentro, afastado de todos os medos que apenas a solidão desperta. E naquele sorriso, durante aquele momento, ele percebeu que duraria mais do que qualquer estátua de protetora da humanidade.

Caleidoscópio de aniversário (Horn 1.1)

•13/08/2014 • Deixe um Comentário

O nariz coçava como tantas vezes antes por conta do ar seco e poluído da metrópole paulistana. Estava, como tantas vezes antes, a visitar Macondo, a aldeia de meu velho amigo Gabo que parece ter me envolvido muito profundamente este ano. Em meio às frases ditas pelo gênio colombiano, eu refletia sobre minha própria vida. Havia uma pequena criança que visitava o enterro de um homem desconhecido.

Eu também me sentia dessa forma. Era meu aniversário, mas a vida passava à minha frente como um estranho. Recebia ligações como uma pessoa em um enterro de um desconhecido, a observar um cadáver sereno, da mesma maneira que vemos um cesto de frutas ou um quadro de Panfilo. Apesar de tudo, no fundo, me animava a calmaria pela qual eu passava por todos essas situações, sem me sobressair ou me exaltar.

Macondo já estava prestes a chegar ao fim quando ela me ligou, mais um telefonema em uma noite recheada deles. Esse havia o diferencial de ser uma chamada local. Outra diferença evidente é que esse telefonema era para mim, e não para o ilustre e nômade aniversariante do dia.

E como disse uma vez um poeta mineiro, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, anônima e imperceptível a princípio, como o bote de uma serpente escondida no arrozal.

Eu a encontrei.

E depois de momentos de honestidade brutal, que tantas vezes beiram o constrangimento, me vi te vendo mais uma vez como alguém que reencontra um velho amigo. A noite foi longa e flertou com pensamentos juvenis há tanto tempo dormentes no corpo nômade e abjeto. O frio na barriga e as mensagens de partida me remeteram há tantos momentos simbólicos e incólumes no meu âmago.

Era o fim da noite, e talvez o fim de tantas coisas que há muito me angustiavam, ou o começo delas. Estes ciclos têm dessas estranhezas, onde o términos e os inícios se encontram como  caleidoscópio colorido sem direção ou sentido, amorfos e vibrantes em um horizonte de novas expectativas.

Alívio

•13/08/2014 • Deixe um Comentário

Pensei que a ausência ia machucar mais, percebo agora que finalmente os calos estão se formando. Passados um ano de dor interminável o peito cessa de apertar e pede arrego. Passados seis meses do fim a queimada parece ter realizado o seu propósito e deixado o solo pronto para o cultivo.

Todos falaram comigo ontem, menos ela, e isso doeu menos do que eu esperava. Fazem nove anos que minha vida virou de cabeça para baixo, nove anos que eu pensei que seriam para sempre, que eu quis que fosse para sempre, mas que o destino, aquele ser arteiro que não nos deixa saber das coisas, optou por negar-me e me surpreender.

Espero pela calmaria, dessas que vem depois das tempestades intensas. Acho que fiz por merecer o furacão, minha negligência e presunção, minha imobilidade e fraqueza a trouxeram, mas creio que as marteladas foram brutais e como metal recém forjado saio fortalecido da turbulência.

Alívio…

E um pouco de calma finalmente.

Sampa

•15/05/2014 • Deixe um Comentário

Às vezes eu sinto que essa cidade me oprime. Talvez no seu tamanho e na sua falta de sentido, talvez pela própria falta, a falta de tudo que é meu e está ausente. Naturalmente eu adoro andar, é como minha terapia pessoal, hoje mesmo quando me dei conta já havia rodado 15 km a pé, entre avenidas e viadutos, que apesar de conterem alguma beleza ainda não me parecem ser o suficiente. Não sei se foram as circunstâncias inusitadas que me trouxeram a esta cidade, ou se São Paulo é mesmo como dizem uma cidade feia, a verdade é que em três dias de peregrinação ainda não consegui me sentir exatamente tocado. Pelo menos não de forma plena.

Depois de um almoço um pouco estranho e formal, me senti dez anos mais velho ao entrar em uma galeria que inevitavelmente não me diz mais nada. O que restava era me perder em caminhadas e tentar apreciar a nova cidade.

É inegável se deparar com o esplendor arquitetônico da Sé, ou do charme de alguns prédios velhos na Avenida São João, mas a impressão que fica é que apenas caminho entre memórias. O começo da liberdade com suas lâmpadas vermelhas em estilo de torii, me lembram minha infância e o quanto eu fiquei fascinado ao pisar neste bairro pela primeira vez, algo que deve ter sido entre os cinco e seis anos. Mais para frente descendo a rua mergulho em devaneios mais recentes, paro no restaurante que tantas vezes fui nas minhas vindas recentes a cidade. Com quem comi com alguns dos meus melhores amigos e com aquela pessoa que de alguma maneira ainda representa tudo para mim.

Continuo andando, levo para viagem os maravilhosos sucos de lichia japoneses e uma barra esquisita de proteína em caracteres orientais. A Liberdade dá espaço a Vergueiro, que parece nunca se acabar… Aqui conforme me aproximo da Avenida Paulista as memórias mais novas começam a aflorar. No Paraíso, o imenso hospital onde reencontrei uma amiga que de alguma forma sempre tive, sempre quis ter e cujo encontrar tirou um estranho peso no meu peito, no melhor dia de São Paulo até agora.

Hoje eu não iria na Paulista, deixarei isso para amanhã quando começar a trabalhar. Sigo para tentar fazer uma chave pela terceira vez esta semana, e me surpreendo quando a moça do chaveiro, mais ou menos da minha idade, bonita, mas um pouco desajeitada, me oferece o telefone dela depois de fazer minha chave (que não funcionaria de novo). Chego enfim em uma avenida sem vida e desolada, que me lembra as piores partes da Barra da Tijuca, sigo ela até finalmente chegar na Vila Mariana, em uma tarde de maio meio frustrante e meio singela em seu desenrolar. Como diz o poeta, ou pelo menos um deles, tardes de maio em que tantas vezes morremos, para renascer depois em uma fictícia primavera.

Sempre em frente, sempre caminhando… eu ando porque sonho e eu ando porque sinto saudade. Me sinto um turbilhão de sentimentos que passa sozinho sob paredes de vidro frio e concreto, sem nada compreender. Como se guiar em um lugar que não tem mar? Nem mesmo um belo Rhône ou Tejo que a corte pela metade? Me resta apenas caminhar por memórias, algumas cheirando a guardado, algumas parecem soltar tinta roxa aonde tocam e outras ainda parecem guardar amor e ausência em igual proporção. O que me resta é chegar em casa e descontar frustrações em lágrimas e teclas, destilando uma cruel poesia acerca de um andarilho urbano.

Sobre locomotivas e girassóis

•23/04/2014 • Deixe um Comentário

O barulho recomeçava subitamente, lá fora uma grossa chuva parecia começar um coral com todas as coisas, do suave correr das águas nas folhas das árvores e na grama, até o incessante pingar nas janelas de vidro do sótão. A explosão súbita de sons era reconfortante e trazia alegria para a velha senhora na cadeira de balanço.

A senhora Margarida esticou seus cotovelos, ajustou a manta sob o seu corpo e prosseguiu para segurar firmemente a xícara de chá quente em suas mãos. O vapor de camomila a ajudava a abrir suas narinas e embaçar seus óculos. As memórias ainda viam vívidas, foi em um dia como aquele que ela conheceu Jorge, que para fugir da chuva decidiu se proteger na varanda da velha casa de veraneio em Rio das Ostras.

Ela poderia descrever todos os detalhes daquele primeiro momento em que se viram sobre o derramar das águas de janeiro. O macacão cinza sujo de graxa no joelho esquerdo, os contornos queimados de sol que compunham um sorriso, ligeiramente escondido por um boné surrado. As manchas curiosamente simétricas no batente da porta e o palpitar forte de um peito adormecido por uma morte que veio antes do esperado.

A lembrança lhe era triste e bela, dois conceitos que pareciam não conseguir fugir um do outro, como se tivessem nascido siameses. Toda beleza é inerentemente triste, é a contemplação de que todos vamos morrer que torna a beleza possível. É o que nos faz se apegar as coisas. Cada momento efêmero da vida, e que em um piscar de olhos passa a fazer parte do passado, se transforma em memória.

De repente vivemos o sublime momento de beleza, mas porque só o temos por um segundo toda beleza se torna triste, e a tristeza acaba se configurando como uma das coisas mais belas do mundo. Sem tristeza não se faz poesia e samba, não existe a memória do macacão sujo de graxa no joelho esquerdo e nem a melodia dos pingos de chuva na janela.

Nota do Autor: O título é inspirado pelo autor que me trouxe essa reflexão original, o poeta americano Allen Gisnberg em seu poema Sunflower