Embaixo dos arcos havia um corpo moribundo. O sujeito foi cair ao lado do posto da guarda civil e demorou horas para ser recolhido. Não havia qualquer indicação de quem ele era: um transeunte ou um vagabundo, não importava muito uma vez que fora transformando em uma pilha disforme de carne e ossos quebrados.
Nada acontece nas manhãs de sábado na Lapa. É um momento de descanso e preguiça. Na sexta, poucas horas antes, o burburinho e a folia duraram até o chegar do sol. E enquanto os eterno foliões sumiam em uma marcha fúnebre para suas camas, o bairro ia perdendo suas cores conforme o sol se fortalecia. O que sobrava era o cheiro acre de mijo, o calor do dia abafado e a tímida presença de turistas e trabalhadores que não se davam conta da enorme transformação que eram testemunhas.
No entanto, ao passar por aqueles arcos de manhã, perenemente esfumaçados, era possível perceber que ali, estatelado no chão, estava um indigente que era como a própria sexta-feira da Lapa: estapafúrdia e suja, alheia as suas limitações e crente em sua capacidade inata de voar. O corpo não era de um suicida depressivo, nem tão pouco um homicídio mal intencionado, ele era apenas uma ilusão de grandeza posta à prova. Dessas que a gente tem no bar da cachaça às cinco horas da manhã e acabam no café da manhã da padaria do bairro.
O corpo não chamava atenção, ele estava morto como o bairro. Toda manhã de sábado na Lapa é um velório a sua própria maneira.


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