Despedida à moda pirajuense

Ela tinha um certo sorriso tímido, daqueles que são tão leves que quase não conseguem esquecer a tristeza interior. Seu corpo era meio de boneca, com proporções pequenas que me faziam pensar que ia quebrá-la. Havia também certo desdém em seu olhar, uma mistura de deboche com ceticismo que tanto acontece com pessoas que seguem há muito tempo no caminho de escolhas erradas.

De alguma maneira isso a consumia, seu tempo já era escasso e no que sobrava ela mergulhava no isolamento. Mas havia vida ali dentro, uma chama que queimava baixo em um corpo delicado, mas que de tempo em tempo deixava escapar lampejos de excitação. Eu me sentia um privilegiado em participar daqueles momentos, talvez por sua raridade ou talvez porque eu deixasse que o pessimismo dela me convencesse e fosse genuinamente surpreendido nessas ocasiões.

Ainda assim ela era a primeira pessoa que eu encontrei na cidade. Foi um momento um tanto estranho, pois a conheci como se já a conhecesse a vida toda, e na verdade esta era primeira vez que nos víamos. Já encontrei muitas pessoas sobre circunstâncias aleatórias, mas nunca como ela. Duas crianças praticamente criadas em ambientes opostos, à quilômetros de distância, mas que partilhavam tantas coisas em comum.

Conforme o tempo os afastou, o pensamento de encontra-la sempre passou pela minha cabeça. Quando o momento finalmente veio, nada realmente foi como esperado, se eu imaginei que seria algo épico e gigantesco, acabou se tornando um momento simples e íntimo entre dois velhos amigos.

A reunião durou pouco, os problemas rapidamente vieram à tona. A depressão nos consumia em alguma instância, mas ela funcionava de maneira oposta, enquanto eu mergulhava nas minhas relações sociais e evitava ficar sozinho a todo custo, ela se isolava. Talvez não fosse mesmo o momento certo, ou outra questão circunstancial.

Tudo que sei é que no fim, ela não aguentou mais e partiu. Foi a primeira pessoa que eu encontrei nessa cidade e de certa forma, acho que sempre vou me fazer lembrar dela ao caminhar por estes prédios. Fico feliz de finalmente ver que ela fez uma escolha de mudar sua vida, deixar um lugar que detestava e se cercar de amigos e familiares… o engraçado é que mais uma vez ela fez o oposto do que fiz, que no momento do maior aperto e dor, fugi para uma cidade estranha onde não conhecia ninguém.

É irônico, somos tão parecidos na forma que caminhamos para sentidos diferentes que penso que posso nunca mais encontra-la. Que nossos poucos momentos juntos pertenceram a mais um nefasto joguete do destino, que por pura malícia decidiu nos colocar no caminho um do outro no pequeno e breve momento que nos cruzamos indo para outra direção. Torço que a boa aventurança não faça morada fixa, e que nós dois possamos cruzar com ela, mesmo em pontos tão distantes um do outro.

Anúncios

~ por Olethros em 10/09/2014.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: