Sampa

Às vezes eu sinto que essa cidade me oprime. Talvez no seu tamanho e na sua falta de sentido, talvez pela própria falta, a falta de tudo que é meu e está ausente. Naturalmente eu adoro andar, é como minha terapia pessoal, hoje mesmo quando me dei conta já havia rodado 15 km a pé, entre avenidas e viadutos, que apesar de conterem alguma beleza ainda não me parecem ser o suficiente. Não sei se foram as circunstâncias inusitadas que me trouxeram a esta cidade, ou se São Paulo é mesmo como dizem uma cidade feia, a verdade é que em três dias de peregrinação ainda não consegui me sentir exatamente tocado. Pelo menos não de forma plena.

Depois de um almoço um pouco estranho e formal, me senti dez anos mais velho ao entrar em uma galeria que inevitavelmente não me diz mais nada. O que restava era me perder em caminhadas e tentar apreciar a nova cidade.

É inegável se deparar com o esplendor arquitetônico da Sé, ou do charme de alguns prédios velhos na Avenida São João, mas a impressão que fica é que apenas caminho entre memórias. O começo da liberdade com suas lâmpadas vermelhas em estilo de torii, me lembram minha infância e o quanto eu fiquei fascinado ao pisar neste bairro pela primeira vez, algo que deve ter sido entre os cinco e seis anos. Mais para frente descendo a rua mergulho em devaneios mais recentes, paro no restaurante que tantas vezes fui nas minhas vindas recentes a cidade. Com quem comi com alguns dos meus melhores amigos e com aquela pessoa que de alguma maneira ainda representa tudo para mim.

Continuo andando, levo para viagem os maravilhosos sucos de lichia japoneses e uma barra esquisita de proteína em caracteres orientais. A Liberdade dá espaço a Vergueiro, que parece nunca se acabar… Aqui conforme me aproximo da Avenida Paulista as memórias mais novas começam a aflorar. No Paraíso, o imenso hospital onde reencontrei uma amiga que de alguma forma sempre tive, sempre quis ter e cujo encontrar tirou um estranho peso no meu peito, no melhor dia de São Paulo até agora.

Hoje eu não iria na Paulista, deixarei isso para amanhã quando começar a trabalhar. Sigo para tentar fazer uma chave pela terceira vez esta semana, e me surpreendo quando a moça do chaveiro, mais ou menos da minha idade, bonita, mas um pouco desajeitada, me oferece o telefone dela depois de fazer minha chave (que não funcionaria de novo). Chego enfim em uma avenida sem vida e desolada, que me lembra as piores partes da Barra da Tijuca, sigo ela até finalmente chegar na Vila Mariana, em uma tarde de maio meio frustrante e meio singela em seu desenrolar. Como diz o poeta, ou pelo menos um deles, tardes de maio em que tantas vezes morremos, para renascer depois em uma fictícia primavera.

Sempre em frente, sempre caminhando… eu ando porque sonho e eu ando porque sinto saudade. Me sinto um turbilhão de sentimentos que passa sozinho sob paredes de vidro frio e concreto, sem nada compreender. Como se guiar em um lugar que não tem mar? Nem mesmo um belo Rhône ou Tejo que a corte pela metade? Me resta apenas caminhar por memórias, algumas cheirando a guardado, algumas parecem soltar tinta roxa aonde tocam e outras ainda parecem guardar amor e ausência em igual proporção. O que me resta é chegar em casa e descontar frustrações em lágrimas e teclas, destilando uma cruel poesia acerca de um andarilho urbano.

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~ por Olethros em 15/05/2014.

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