Orfeu de Virgílio

Desculpem a minha falta de atualizações. Estou completamente entregue a minha monografia que tento escrever diariamente. Mas ao mesmo tempo que me cansa, é um tema que também me fascina. O tipo de fonte que tenho que trabalhar é simplesmente sublime, como estes versos de Virgílio, que narram a mais bela e clássica história de amor do mundo.

Virgílio: Geórgicas IV 453–527 por Antônio Feliciano de Castilho (séc. XIX)

“Tens nume a perseguir-te. Expias atentados.
O misérrimo Orfeu, que inda é mui bom contigo,
se o não tolhe o destino inflige-te castigo
de o esbulhares da esposa; e justas iras ceva.
Ela em flor (pensa-o bem) votada à estígia treva,
de ti se ia fugindo ao longo da ribeira,
tão louca de terror, tão cega na carreira,
que não viu ante os pés o hidro entre a verdura,
guarda enorme do rio. Ai, moça! Ai, desventura!
“Das Dríades o coro encheu de vãos queixumes
por sua irmã finada a serra até aos cumes.
Rodopeus alcantis, pângeas assomadas,
terra marcial de Reso, e géticas moradas,
e campinas do Hebro, e a ática Orítia,
tudo a chorou. O esposo à lira em vão pedia
lhe suavizasse a dor. Por ti, consorte amada,
por ti, consigo a sós, na praia descampada,
por ti, raiando a luz, por ti, quando atro manto
a noite desdobrava, enchia de ais o canto.

“Até ousou descer do Tenaro as gargantas,
fundo ingresso a Plutão; pôr temerário as plantas
no luco90 horrendo e negro, atravessar o tetro91
bando dos manes; ver o atroz que empunha o cetro
do império morto; enfim tratar de perto os duros
corações surdos sempre a rogos e conjuros.
Esbulhares: desapossares.

“Do Érebo mais fundo, ao som dos seus cantares,
as sombras dos sem-luz subiam-se aos milhares;
quais pássaros num souto ao fim da tarde, ou quando
dos montes Austro hiberno os veio profligando:
donas, varões, heróis, meninos, virgens, quanto
mancebo foi à pira ante seus pais em pranto;
inúmero tropel, mas rodeado todo
do informe canavial, do ferrugíneo lodo
e linfa do Cocito horrífico e dormente;
turba por entre quem se arrasta qual serpente
a Estige encarcerando-a em suas nove roscas.
Que digo! Até ao imo aquelas mansões foscas
do desânimo eterno, o Tártaro, as riçadas
Eumênides irmãs de cobras azuladas,
tudo pasma a escutar! Cérbero as vozes roucas
nas gargantas reprime, abertas as três bocas;
e a roda de Íxion suspende o remoinho!

“Já vinha desandando o lôbrego caminho,
redivivo ao prazer, e salvo dos azares.
Restituída a seus pais, volvia aos puros ares
trás ele, e não olhada, Eurídice. Tal era
a cláusula que ao dom Prosérpina impusera.

“Alucina-se o amante (insânia perdoável,
se couberam perdões no abismo inexorável!)
pára, já quase à luz… esquece… oh! luto,
sua Eurídice encara, e esvai-se à lida o fruto!…
Do Averno o cru tirano o pacto há rescindido,
e três vezes sai do Orco um lúgubre estampido,
co’a voz dela per meio:

‘Orfeu, que amor foi este?
Mísera! A mim, e a ti, co’o teu furor perdeste!
O fado me revoca! Ai! Sinto os olhos meus
outra vez a nadar no sono eterno… Adeus!…
Força estranha me empuxa! A negridão me cerca!
Tendo-te embalde as mãos! É força que te perca!’ –

“Disse, e desapareceu, qual fumo na atmosfera;
sem nunca mais o ver, a ele, que inda espera
co’as frenéticas mãos nas sombras apanhá-la,
mil coisas quer dizer-lhe, e não atina fala!

“Do Orco o velho arrais nunca dess’hora avante
consentiu mais regresso à malograda amante.

“Duas vezes viúvo, onde é que há de ir-se agora,
que há de fazer Orfeu? Pranteia, clama, implora,
e todo o inferno é surdo, e nenhum deus o atende!

“Gelada ao longe a esposa a veia estígia fende.

“Sete meses a fio, é fama que levara
Orfeu a deplorar a sua sorte avara,
dentro de uma alta lapa entre as nuvens pendente
do deserto Estrímon sobre a fugaz corrente.
Naquela gruta fria, entoando os seus trabalhos,
os tigres apiedava, atraía os carvalhos.
Tal na copa do choupo aflita filomela,
de haver perdido a prole aos ecos se querela,
pois duro lavrador, que lhe espreitava o ninho,
veio implume roubar-lha ao maternal carinho,
carpe-se toda a noite apegadinha ao ramo;
renova sem cessar o mísero reclamo,
e enche de terna mágoa os longes da devesa.
De tamanha saudade imerso na escureza,
Orfeu nem se comove a tentações de amores,
nem se dá d’himeneus. Vai, só com suas dores,
retrilhando o nevão das hiperbóreas101 terras,
e do Tanais algente, e das riféias serras,
a deplorar sem termo Eurídice roubada,
e do cruel Plutão a dádiva frustrada.

“Tão exemptos desdéns, tão longa rebeldia
trocaram afinal o afeto em sanha ímpia
nos ígneos corações das cícones104 amantes.
Entre o rito noturno, orgias ebrifestantes,
correm, bramindo, ao moço; investem-no mil braços;
cai; pelo campo todo atiram-no pedaços.

“Que termo! E a que viver! Lhe não impôs seu astro!
A cabeça arrancada ao colo de alabastro
ia-se a volutear no Ebro, na corrente
do Eagro, de seu pai, mas inda a voz cadente
co’a língua regelada – ‘Eurídice’ dizia;
– ‘Eurídice infeliz’ – chamava na agonia;
E em todo o rio ao longo as margens em tom brando
– ‘Eurídice infeliz’ – ficavam murmurando”.

Essa tradução, não me parece a mais adequada a Virgilío, no entanto, eu não vou perder um tempo abissal para traduzir o texto ou achar uma versão melhor… Agora de volta a monografia.

Anúncios

~ por Olethros em 27/05/2009.

Uma resposta to “Orfeu de Virgílio”

  1. Awesome issues here. I am very glad to look your article.
    Thanks a lot and I am looking ahead to contact you. Will you kindly drop me a mail?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: