Uma cena no centro do Rio e no centro do mundo.

Ok. O WordPress foi mau comigo hoje.

Bem, a cena a seguir é um pequeno trecho livre (isto é, sem revisão, aparos, e em formato livre) de uma cena do meu primeiro projeto de HQ. Que não é o Reflexo que trabalho com a Vanessa, nem o meu trabalho (que tem haver com o Hesíodo que eu postei) com a Bia. A grande verdade é que este projeto, me parece uma das idéias mais legais que eu já tive, mas quase impossíveis de colocar no papel. Ele exige muitos personagens, tramas paralelas, muitas páginas e muitos quadros. É bastante problemático, e como o Daniel (co-criador e desenhista da idéia) é o mais ocupado dos meus colaboradores, ela certamente será a última das minhas primeiras histórias.

Essa pequena cena, foi escrita em um surto de inspiração (com a ajuda de Mircea Elíade) na minha ida de ônibus para faculdade (o que é absurdo por que geralmente vou de bicicleta). Ainda que o projeto seja bem mais voltado a mistérios do que respostas, esta é inevitavelmente uma cena que mostra algumas delas, mas apenas para deixar a história mais climatizada, e por que não mais misteriosa/estranha? Em suma, é uma cena atípica.

Depois de uma longa caminhada eles finalmente param. Diogo continua ansioso quanto ao seu problema, o poeta sorri e dá uma forte fungada no ar, ao chegar. O Local é o pequeno espaço entre a Luís de Camões e a Rua do Teatro, um lugar vazio, onde tremulam bandeiras desgastadas do Brasil, uma bizarra escultura moderna, e um senso de solidão esmagadora.

– Chegamos.

– É aqui? O que tem de especial nesse lugar?

– Nada.

– Por acaso ele mora aqui?

– Não, pelo menos, geralmente não.

– Então, por quê aqui?

– Porque aqui é o centro.

– O centro? Ahn?

– Foi aqui que o mundo começou. Aqui é o Axis Mundi.

– Eu sabia que não deveria ter seguido você. Obviamente, toda essa história foi uma idiotice. Eu deveria ter falado a verdade para o meu tio. Perda de tempo.

– Não seja tão afobado. Veja bem, o mundo não foi fundado somente aqui. Vai, senta um pouco, daqui a pouco ele chega. 

Os dois se sentam no banco verde, e olham o bizarro monumento na sua frente. Diogo está claramente contrariado e nervoso.

– Como é que eu vou te explicar isso? Você é cristão?

– Bem, eu vou na igreja quando alguém morre, ou em casamentos.

– Enfim, você conhece a bíblia?

– Muito pouco, por que, agora você vai pregar para mim? Nunca pensei que você fosse chegado nesse tipo de coisa.

– Não é nada disso, é apenas um jeito mais fácil para te dizer. No Exôdo, tem um versículo que vai assim: “Não te aproximes daqui, disse o senhor para Moisés; tire as sandálias de teus pés, por que o lugar onde se encontras é uma terra santa” (Êxo. 3:5).

– E?

– Aquele local era o centro do mundo, lá que ele havia sido fundado, é necessário primeiro marcar um ponto. A fundação precede o nosso entendimento de mundo, o nosso refletir. Ele demarca o ponto aonde toda a nossa orientação repousa.

– Mas por que aqui?

– Como disse poderia ser em outro lugar. Apenas a manifestação do sagrado é suficiente para a fundação. E o sagrado não está realmente nas coisas ou locais. Melhor dizendo, ele está, mas não nos é revelado.

– Você fumou hoje?

– Cara, é até simples na verdade. Não é por que não vemos uma coisa que significa que ela não está lá. Se eu considero esse lugar sagrado, eu o faço centro. Ele é agora, o centro do mundo, um lugar de fundamento. A partir do momento que eu presenciei uma revelação aqui, está demarcado a separação desse lugar do resto. Ele não é mais profano.

– Ainda não funcionou, essa história inteira… Eu devia ir para casa. Eu sabia que esse cara era lenda.

– Isso não tem só haver com ele. Olha, quando experimentamos um local como sagrado, obtemos um “ponto fixo”, um eixo que nos orienta, que comparamos, que refletimos à parte do resto. Nós realmente nos sentimos vivos ali, pela primeira vez. Os outros lugares, normais, profanos, tanto faz, eles mantêm a homogeneidade, ou seja, eles são todos iguais, não é possível orientar-se, pois o ponto fixo passa a variar de acordo com suas necessidades diárias.

– E você viveu alguma experiência bizarra aqui?

– Não. Mas aqui é um lugar tão bom quanto qualquer outro para ser o centro do mundo. Está vendo a beira da calçada? Ali muito breve será o limiar, uma fronteira que opõe os dois mundos, o lugar sagrado e a mera Rua Luís de Camões que todos passam.

– Então ainda não é o centro?

– Garoto, esse lugar já parece sagrado para você?

Ele dá de ombros, sem ligar em responder.

– Ele está chegando.

– Será que ele vai me ajudar?

– Bem, você veio até o centro do mundo para pedir isso a ele. Você veio a pé até o Gólgota dos cristãos… Mas infelizmente, seres como ele não são muito fáceis de se compreender. Ele não usa nossa lógica.

– Só espero não estar perdendo tempo… E está ficando escuro, e é uma longa caminhada de volta para casa.

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~ por Olethros em 15/05/2009.

Uma resposta to “Uma cena no centro do Rio e no centro do mundo.”

  1. whoa tá mto bom! vc chegou a postar mais coisas relativas ao xamã?

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