Máquina de escrever

O homem passava dias diante do computador. A coluna já estava torta pelo mal sentar. As mãos calejadas pelo apoio da mesa. Ele prendia os olhos e os sonhos na vã tentativa de que um texto lhe saltasse do plano das idéias, e se fizesse poesia no som das teclas gastas.

Havia teias de aranhas por suas pernas, e a cadeira estava enferrujada. Ele não se mexia, exceto as mãos, veículos de lírica obsessão. A poeira se aglutinava sob seu corpo, trazendo uma sutil percepção de tempo. Mas não existe tempo para esgotar uma boa idéia, que espera até seu próprio momento para nascer. Não é desse mundo o seu calendário. Não possui relação com os astros, ainda que uma idéia seja tão somente signos.

Um dia haverá um lampejo, e o plano platônico se abrirá por alguns segundos. Haverá angústia, sofrimento, dor, graça, felicidade e verdade. Pois toda boa história se faz verdade. Enquanto isso, o homem espera curvado sob sua cadeira. O bater de teclas é a única vida que lhe resta, um ritmo funesto de esperança medíocre.

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~ por Olethros em 08/05/2009.

Uma resposta to “Máquina de escrever”

  1. Calo de mouse!!
    Ah, eu gosto das idéias que aparecem de madrugada e, de tão fortes, me fazem levantar para anotá-las.

    Abraço!

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