Um pouco de teoria da História

Este é um post totalmente atípico. Não gosto de misturar meu espaço como autor com minha profissão  como acadêmico da História. Mas tendo em vista que esta discussão sobre o papel do historiador veio a surgir no excelente site Pensotopia, e que a mesma brota na net (principalmente no meio de rpgistas) com frequência. Resolvi colocar aqui um trabalho, muito antigo (e bem fraco já que foi meu primeiro texto acadêmico), escrito para uma matéria de Metodologia da História, que tenta de certa forma servir como um pequeno resumo de como é pensado a disciplina cotemporâneamente. Ele também é um fichamento de alguns livros utilizados durante o curso, mais principalmente aquele produzido pelo Historiador Inglês Keith Jenkins. De forma alguma este Historiador (e seu didático livro Repensando a História) se constituem hoje entre meus favoritos, mas ele certamente é o mais indicado para leigos, e teve um grande impacto no início da minha formação acadêmica.

Portanto, para todos aqueles que tem interesse, um pequeno trabalho escrito por um jovem de 18 anos (o tempo passa rápido, as vezes parece que foi ontem) que havia acabado de iniciar sua jornada na compreensão de seu ofício como profissional do tempo…. Eu até adorava Nietzsche que engraçado, no final acabei o trocando por seus co-terrâneos mais recentes como Heidegger (viva o grande Emmanuel Carneiro Leão), Cassirer e Wittgenstein (pelo menos este já estava na lista). Leiam pela sua conta e risco….

Introdução

Trataremos neste trabalho sobre um tema extremamente primário, mas ainda muito pertinente, que é a filosofia por trás da produção historiográfica. Tentaremos explicar qual é a função e que tipos de processos de modernização a história vem passando nos últimos anos, focando sempre em seu conteúdo filosófico. Utilizaremos alguns livros como base deste ensaio até copiando um pouco a sua estrutura (usei as perguntas que Jenkins propõe em seu livro, sintetizando e acrescentando dados as respostas), os mesmos estão devidamente creditados na bibliografia ao final deste ensaio. Por fim, devo dizer que este trabalho apesar de poder ser visto como um pequeno manual de filosofia da história ou teoria da história, não tem a pretensão do mesmo.

O que é a História?

Sobre a teoria – Keith Jenkins inicia seu livro com a explicação de um argumento. Que aqui será mencionado:

“O primeiro (…) é que a História constitui um dentre uma série de discursos a respeito do mundo. Embora esses discursos não criem o mundo (…), eles se apropriam do mundo e lhe dão todos os significados que tem. O pedaço de mundo que é o objeto (pretendido) de investigação da história é o passado. A história como discurso está, portanto numa categoria diferente daquela sobre o qual discursa. Ou seja, passado e história são coisas diferentes. Ademais, o passado e a história existem livres um do outro; estão muitos distantes entre si no tempo e no espaço. Isso porque o mesmo objeto de investigação pode ser interpretado diferentemente por diferentes práticas discursivas (…), ao mesmo tempo que, em cada uma dessas práticas, há diferentes leituras interpretativas no tempo e no espaço. No que diz respeito a história, a historiografia mostra isso muito bem.”

(JENKINS, Keith. A História repensada. São Paulo: Contexto, 2001, p 23)

Em seguida o autor trata de se aprofundar no tema sobre a diferenciação entre passado e história, explicando que muitas vezes as pessoas se esquecem que eles constituem campos ou objetos diferentes. O passado é o tempo, o que já foi, e ele só pode ser trazido de formas “artificiais” como artigos e documentos. A história, ao contrário do passado é um tema presente, ela se encontra nas nossas estantes e bibliotecas, ela é uma manifestação moderna de um ofício moderno. Isso leva a um segundo ponto relevante, que quando alguém estuda história essa pessoa conhece a visão de alguém sobre algum tópico e não realmente a história (como se fosse algo puro). Ele está na verdade se graduando na visão de um historiador.

Por fim, toda disciplina, como Nietzsche claramente observa, constitui-se por aquilo que ela proíbe seus praticantes de fazer. Toda disciplina é constituída por um conjunto de restrições ao pensamento e a imaginação e nenhuma é mais repleta de tabus do que a historiografia profissional. Isso é ainda mais verdade dentro da mesma onde vemos a exclusão que recai sobre alguns grupos, feita pela classe dominante. Por isso sabemos pouco sobre a história das mulheres ou dos escravos.

A história é apenas mais uma forma de discurso, ela é a forma na qual os historiadores lêem o passado, e as interpretações do mesmo são infinitas. O mundo sempre chegará a nós na forma de uma narrativa e não há escapatória a isso, não podemos verificar a veracidade de um passado “real”. A realidade nos é construída cotidianamente, através de nossa consciência. Como Heidegger explica (em se “no caminho para linguagem) as pessoas diferenciam “coisas” de seus contextos, dando relevância a características particulares ao nomeá-las. Então, ao fazer um julgamento qualitativo de igualdade, todas as coisas que compartilham dessas características podem ser consideradas iguais. Criando assim uma meta-realidade. Essas percepções são mutáveis e diacrônicas e a maior questão teórica é em que extensão os membros de uma cultura poderão confiar em sua percepção para poderem criar o seu real.

Um bom exemplo desta criação da realidade através da linguagem é a medição da passagem do tempo. Só existe noção de tempo quando uma cultura desenvolve e concorda com signos como hoje, ontem e amanhã, do contrário não há um trabalho contínuo e conceitual de tempo. Um bom exemplo disso são os chineses que conjugam seu tempo através de advérbios e sufixos dando uma noção de realidade temporal inteiramente baseada em contexto, ou seja, completamente diferente de nós.

Podemos perguntar como o historiador poderia conciliar história e passado? Como fugir da possibilidade de se tornar um ficcionista? Através da utilização e discussão de três pontos teóricos a epistemologia, a metodologia e a ideologia.

A epistemologia (do grego episteme) se refere as teorias do conhecimento, e a quantidade de conhecimento que alguém pode obter. Isso é claro, é algo extremamente frágil, já que até mesmo as fontes estão sujeitas a uma interpretação de quem as criou. A epistemologia se calca em interpretar algo que foi produzido por alguém no passado, e que obviamente estava também limitado as suas próprias percepções e idéias. Isso faz com que o estudo epistêmico dos historiadores seja extremamente limitado, fora isso existe o fato de que a maior parte do que ocorreu no passado nunca foi registrado e portanto está perdido para sempre.

O que limita então a capacidade interpretativa dos historiadores e faz com que eles não sejam meros autores de ficção? A metodologia, com suas regras e procedimentos rígidos e a ideologia (que auxiliaria o historiador na escola do método apropriado)? Na verdade, “todos os relatos históricos não são prisioneiros do tempo e do espaço e, assim ver que os conceitos historiográficos não são alicerces universais, mas expressões localizadas e particulares”.

Aprofundando um pouco sobre a questão ideológica, podemos dizer que toda historiografia é ideológica, e que toda história é freqüentemente reordenada e reescrita para servir a um ponto de vista. Para Jenkins, a história é “problemática, pois se trata de um termo e um discurso em litígio, com diferentes significados para diferentes grupos”.

Nisso podemos concluir que a história existe como uma necessidade de antecedentes, uma necessidade de raízes para a sociedade, para que nelas se construa um futuro. E essa história versátil tem servido de base para incontáveis narrativas utilizadas em detrimento ou beneficio de vários grupos sociais, como suas auto-biografias coletivas.

Concluindo, a teoria da história se sustenta em aspectos epistemológicos, metodológicos e ideológicos. O primeiro nos mostra que nunca poderemos de fato conhecer o passado e que existe uma enorme discrepância entre o mesmo e a história. Para isso eles desenvolvem seus métodos rigorosos, na tentativa fútil de reduzir a influência pessoal de um historiador. Entretanto, os métodos são infinitos e parciais e são instrumentos de dominação de um objeto (no caso a história) para seus próprios benefícios. A história é teoria, ou seja ela é ideologia, e a mesma é apenas interesse material e a ideologia está em toda história.

Por fim quero lembrar de alguns tópicos ressaltados por José Carlos Reis em seu “História e Teoria” quando vê o conhecimento histórico como problema. Iniciando por ser “um conhecimento indireto, que não mostra o vivido ao vivo, é inconsciente”. Ou seja, o historiador não pode experimentar seu objeto, testa-lo, ele deve recorrer a testemunhos intermediários demasiadamente suspeitos, que ou não sabiam o que estavam vivendo ou desejavam controlar a imagem que o futuro faria deles. O passado é uma abstração, é impossível saber como ele aconteceu e dificilmente alguém um dia saberá. Fora que a história não cria um discurso próprio, utilizando sempre uma língua materna que por si só já está cercada de preconceitos, arcaísmos, anacronismos, sentidos múltiplos, conotações e afins. Fora que nos referimos a uma linguagem polissêmica, conhecimento histórico é incapaz de fazer previsões e só é articulável depois do ocorrido, sendo uma retrodicção pouco rigorosa.

Sobre a prática – A história é um produto do trabalho de certos operários denominados historiadores, que se utilizam de certas “coisas identificáveis”. Estas seriam, em primeiro lugar, eles mesmos, com seus valores, posições e ideologias. Levam também seus pressupostos epistemológicos, dos quais irão surgir suas hipóteses, abstrações e afins. Em terceiro lugar eles têm suas rotinas e procedimentos para lidar com as fontes. Verificação de origem, autenticidade, fidelidade. Em quarto, eles estudam as obras de outros historiadores e os materiais não publicados, os “vestígios do passado”. E por fim, em últimos o historiador redige sua pesquisa calcada em seus fatores teóricos (esta fase está sujeita há diversos contratempos, como pressão, mercado, formato, críticas e afins). E por fim, temos o consumo do texto, que se dá em circunstâncias diferentes toda vez que é utilizado, nunca se lê o mesmo texto de forma repetida.

Podemos perguntar que se a história é algo meramente relativista, por que estuda-la? Embora a lógica diga que todos os relatos são problemáticos e relativos, a questão é que alguns são dominantes e outros ficam a margem. Em termos lógicos, todos são a mesma coisa; mas na realidade eles são diferentes; estão em hierarquias valorativas (ainda que em última análise, infundadas). Isso tudo gira em torno do poder, pois conhecimento é poder, e ele está ligado em atender os interesses dos grupos sociais que distribuem e legitimam tanto quanto podem o conhecimento. Ou seja, escaparemos do relativismo ao analisar as relações de poder na prática, ao percebemos que tudo nos leva a uma ação reflexiva que nos mostra que todos detêm a capacidade de produzir a história.

Por fim, podemos definir história de diversas formas, escolhemos essa curta definição de Jenkins que pareceu apropriada. “A história é um discurso cambiante e problemático, tendo como pretexto um aspecto do mundo, o passado, que é produzido por um grupo de trabalhadores, cuja a cabeça está no presente (…), que tocam seu ofício de maneiras reconhecíveis uns para os outros (…), e cujos produtos, uma vez colocados em circulação, correspondem a uma gama de bases de poder que existem naquele determinado momento e que estruturam e distribuem ao longo de um espectro do tipo dominantes/marginais os significados das histórias produzidas”.

Algumas perguntas e algumas respostas

1 – Qual é a situação da verdade nos discursos historiográficos?

A verdade é um pressuposto criado por regimes de poder, detêm a verdade aquele que detêm o poder, ou seja, a ela é uma criação, não existe algo puro e neutro que possa ser descrito como a verdade. Em sua realidade, a ela é um censor, é um grupo de idéias que agem para limitar um indivíduo, para exercer controle sobre ele. Isso vincula a verdade a qualquer interesse social, daí também a historiografia. A filosofia é uma disciplina mais adequada a esse tipo de estudo ou pergunta, sendo que a mesma esta sujeita a uma resposta similar (oriunda talvez de discursos que rompiam com a predominância kantiana ao longo do século XIX e da crise da representação), esse tipo de argumento surgiu no início do século XX principalmente através de Wittgenstein e Heidegger, mas só atingiu o meio historiográfico no final do mesmo.

2 – Existe história objetiva? Ou a história não passa de interpretação?

Sempre existirão fatos, coisas que temos praticamente como certas como a primeira guerra mundial, ainda sim, um historiador considera esses fatos como banais e individualizados, já que sua ambição é saber “não apenas o que aconteceu, mas como aconteceu e o que as coisas significavam ou significam”. Os ditos “fatos” são apenas um texto, e um texto sozinho, não tem valor algum. É necessário que alguém leia esse texto para ele ganhar valor, é necessário que alguém o interprete, e essa é função do historiador. Ainda sim, com o avanço de algumas ciências e da própria filosofia, mesmo a primeira guerra mundial pode ser contestada, assim como a própria realidade.

3 – O que é parcialidade? E quais as dificuldades para erradica-la?

A primeira questão a tocar sobre esse tópico é o que não é parcialidade? Se a verdade é uma criação e toda a história é interpretativa, o que seria imparcial? Não existe uma parcialidade na história, pois se deve ser parcial em relação a alguma coisa e no caso dos historiadores todos eles se baseiam em suas próprias visões (mesmo quando auxiliados por fatos), ou seja, não há nada no qual se basear. Se pegarmos o texto de uma historiografia feminista e questiona-lo sobre sua parcialidade, recebermos uma resposta de que nós mesmos estaremos sendo machistas patriarcais (portanto parciais), e perceberemos que não existem um caso onde algo seja puramente imparcial, portanto a pergunta, dentro do ponto de vista historiográfico não faz sentido algum.

4 – O que é empatia? Ela é possível? Como e por que? E, se ela não for possível, e se ela não for possível por que é tão importante tentar alcança-la?

Empatia é a necessidade de se pensar como um outro, no caso da história, de se pensar como alguém do passado. Se diversos estudos (como os de Wittgenstein em suas “investigações filosóficas”) nos comprovam que é impossível entrar na cabeça de alguém que conhecemos bem, e poder reagir como elas em qualquer situação, como alguns historiadores podem ter a pretensão de saber como pensa um homem que morreu em outro período histórico? Outro detalhe é o fato de que toda fala é uma interpretação, ou seja você nunca sabe puramente o que alguém realmente disse ou escreveu, tudo é apenas a forma com a qual você interpretou isso. Se essa interpretação tem como distancia coisas como o tempo e o lugar então ela se torna extremamente problemática. Estamos sempre atados ao nosso tempo, por isso ficamos dependentes das chamadas ficções anxiomáticas. Toda história é a história de uma mentalidade, é sobre o que as pessoas no passado tinham na cabeça, “se quisermos adquirir conhecimento histórico, deveremos inserir tais vestígios do passado nas mentalidades que lhes deram vida e, assim, ver o mundo tal qual elas viam. Por conseguinte, é essa pressão idealista, diversificamente elaborada, que legitima para muitos historiadores a abordagem da empatia”(Keith Jenkins). A questão é que essa abordagem é impossível, pois não podemos nos calcar numa suposta constância da natureza humana. Não podemos ver a história como a história da mentalidade das pessoas do passado e sim com a mentalidade dos historiadores.

5 – Quais as diferenças entre fontes primárias e secundárias? E entre “provas” e “fontes”? O que está em jogo nesse aspecto?

A fonte primária é apenas um fetiche de alguns historiadores, é quando se considera que algo é puro, original, ou seja os vestígios do passado. Esse conceito está diretamente ligado a questão da prova. Qual é a diferença entre eles então? A palavra prova é algo ativo, ele se impõe como uma coisa incontestável, que quando se encontra uma “prova” já adquirimos automaticamente uma explicação latente. Isso é falso. O passado ocorreu e vestígios dele foram deixados para trás, eles estão lá, não importa se o historiador os usa ou não, mas eles apenas se tornam provas (se é que podemos usar esse termo) quando utilizados para corroborar algum argumento, ou seja, a prova é sempre um produto do historiador, antes disso ela não existe, ela é apenas uma fonte. O passado não tem voz ativa e ele somente se expressa através do historiador.

6 – O que é que a gente faz com os pareamentos como causa e efeito, continuidade e mudança, semelhança e diferença? É possível fazer o que se pede com eles?

Os pareamentos são ferramentas metodológicas que podem ou não podem ser úteis, produzir história está longe de ser algo muito rigoroso em termos teóricos, mesmo no que se refere a algumas das preocupações mais cruciais da própria história, como, por exemplo, explicar por que as coisas aconteceram. Ou seja, a história é um ofício com seu próprio vocabulário, sendo aceito no discurso dominante aquele que se utiliza dos pareamentos indicados. Na máxima eles não são verdadeiramente úteis, apesar de necessários em nossa cultura histórica atual. Uma indústria da cópia acadêmica. O mesmo trabalho aqui apresentado bebe um pouco desta fonte, utilizando alguns termos por José Carlos Reis, Delacampagne, Nietzshce e Jenkins.

7 – A história é arte ou ciência?

A história não pode alcançar a verdade e não é a disciplina mais metodologicamente rigorosa, ainda sim ela não tem a liberdade de criação total e completa, pois não existe uma liberdade em sua narrativa que está sujeita a natureza dos materiais históricos. Por isso a história se caracteriza como um semiciência, apesar disso o debate entre arte e ciência já foi ultrapassado e a história serve aos dois de formas diferentes, apesar de que muitos historiadores continuam a lutar pelo título de ciência dado suas ideologias metodológicas e “descuidada arrogância no que se refere à teoria e à autocrítica”(José Carlos).

“Por conseguinte, em relação aos debates, precisei argumentar que nos escapa a verdade do passado; que a história é intersubjetiva e ideologicamente posicionada; que a objetividade e a imparcialidade são quimeras; que a empatia é um conceito viciado; que original não significa necessariamente genuíno; que a história não é arte nem ciência, mas sim uma coisa diferente, uma coisa sui generis, um jogo de linguagem que não está para brincadeiras, que está localizado no tempo e no espaço e no qual as metáforas da história como ciência, ou da história como arte, refletem justamente a posição de poder que põe essas metáforas no jogo.”

(JENKINS, Keith. A História repensada. São Paulo: Contexto, 2001, p 90)

A História na pós-modernidade

Nietzsche nos conta a respeito de três atitudes negativas do espírito diante do passado:

Monumental, onde se procura no passado os modelos para a ação Ela valoriza os magníficos e luta contra a precariedade do ser. Só o grande homem conta e só ele é exemplar e pode inspirar a imitação dos homens. O passado passa a ser um ideal e desqualifica o presente e as possibilidades de futuro. “os mortos enterram os vivos”.

Antiquária, onde se venera o passado em todos os seus detalhes. Esse espírito colecionador cataloga fatos e mais fatos, como arquivos de museu. Isso cria uma mumificação de um passado que o presente não anima mais, não inspira. Para ela a vida não deve ser preservada, e sim aumentada em potência. “Os mortos enterram os vivos”.

Crítica, ultima atitude negativa que põe o passado diante de um tribunal da razão. Essa seria atitude da ciência moderna, sua instancia é a razão critica e seu lema seria: seja a verdade, pereça a vida. O ideal objetivista da história cientifica estuda não exemplos ou lições da história, mas fatos despidos de subjetividade. Mais uma vez “os mortos enterram os vivos”.

Nesses modelos, a história representa uma desvantagem para vida, pois ela oprime e soterra o presente. No entanto, já em sua época, surgia a hermenêutica de Schleiermarcher e Dilthey, que interrogava com o passado a partir do presente, ou seja, os vivos interpretam e dialogam com os vivos do passado. Desde Heródoto, a história esteve ligada a vida e não a morte. Na Grécia antiga a história era tida como o testemunho dos tempos, a luz da verdade, a luz da memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade e a protetora do futuro. Não devemos evergar pelos caminhos criticados por Nietzsche e nunca desde a antiguidade clássica estivemos mais próximos de sobrepor tais atributos. A história sofreu uma grande metamorfose com o advento do pós-modernismo, vindo associar a ela vários atributos já conquistados por outras disciplinas e que foram duramente repelidos sobre a ditadura dos annales ao longo do século XX. Com o pós-modernismo, Heidegger e Saussure finalmente chegavam a história.

Fazendo uso da definição de Jean-François Lyotard em “O Pós-moderno”, que se caracteriza pelo “morte dos centros” e “a incredulidade ante as metanarrativas”. Mas o que significa isso?

A morte dos centros nos diz que não existem mais quadros de referencia de centros privilegiados; como coisas anglocêntricas, eurocêntricas, etnocêntricas e afins; não passam de ficções particulares (úteis para a formação de interesse) e estão longe de serem legítimas ou naturais. Já a “incredulidade das metanarrativas” diz que as narrativas estruturadoras perderam a vitalidade. Como Nietzsche afirma: “Deus está morto”, e com ele a metanarrativa teológica, ocorre também a morte das metanarrativas materiais baseados na razão e ciência. Até mesmo os conceitos relativamente recentes como o valor pelo mérito (utilizado pela burguesia contra a aristocracia) foi por terra e passou a ser utilizado pela classe operária contra seus criadores. Vimos a destruição da noção de progresso liberal, de harmonia competitiva e da crença otimista na racionalidade do homem. Ou seja, vivemos no pós-tudo, onde os velhos conceitos mal se agüentam, e todas as metanarrativas nos soam ultrapassadas e inverossímeis. Como observou George Steiner, “é esse colapso, mais ou menos consciente, daqueles gradientes de valor hierárquicos e definidores (e pode haver valor sem hierarquia?) o que constitui agora o fato mais relevante de nossa situação intelectual e social”.

O pós-modernismo não tem tendências ou posições, nem é resultado de melancolia, mas sim da síntese de centenas de pensadores diversos ao longo dos dois últimos séculos, em sua conclusão em comum. Que toda ideologia tem uma fundamentação com pés de barro, e como resultado entramos em um tempo de niilismos subjacentes.

O passado pode ser reescrito infinitamente, ele pode sustentar incontáveis relatos históricos plausíveis e igualmente legítimos, pois quem está no controle é que se apropria do passado, como Nietzsche dizia: “Assim quis eu”.

Hoje isso está em vigor mais do que nunca, a pluralidade de ideologias cria um número incontável de historiografias. Temos a “História como grife” uma massa para usar e abusar a gosto.

Tudo isso acarreta em um aspecto positivo do mundo moderno onde a história tem potencial de capacitar até mesmo os marginalizados que poderão criar a sua própria história, que não necessariamente será a das outras pessoas. Como diz Peter Widdowson “É improvável que hoje a história possa se resgatada do desconstrucionismo historiograficamente orientado e metodologicamente balizado. Aliás, nem se deve tentar isso”. É importante insistir que os historiadores escrevem o passado através de suas posições ideológicas, sendo passível de desconstrução, o passado é algo tão especulativo quanto o “mundo real”. Isso pode ser visto como algo subversivo por aqueles que detêm o poder, por uma vã tentativa de impor limites da “história como se deve”, tentativas que considero de difícil sucesso.

No fim, recomendo o ato de historizar sempre, ou seja refletir sobre a história e sobre sua própria atividade. E que não existe história sem posição, apenas pessoas que as omitem (conscientemente ou não). Fecho meu ensaio com as ultimas palavras de Jenkins em seu “a História repensada”.

“Portanto, no mundo pós-moderno, pode-se argumentar que o conteúdo e o contexto da história deveriam ser constituídos por uma ampla série de estudos metodologicamente reflexivos sobre as maneiras de se fazerem as histórias da própria pós-modernidade.”

Bibliografia

JENKINS, Keith. A História repensada. São Paulo: Contexto, 2001

REIS, José C. História e Teoria. Brasília: FGV, 2000

DELACAMPAGNE, Chistian. História da Filosofia no século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

MOMIGLIANO, A. As raízes clássicas da historiografia moderna. São Paulo: Edusc, 2004

FOUCAULT, M. Verdade e poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979

SAUSSURE, F. Course in general linguistics. New York: Mc Grawn, 1954

BARTHES, R. O discurso da História. Brasília: Brasiliense, 1983

WITTGENSTEIN, L. Philosopical ivestigations, Oxford: Blackwell, 1983

HEIDEGGER, M. On the Way to Language. New York: Harper, 1982.

LYOTARD, J.-F. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympo, 1988

NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. Lisboa: Guimarães & cia, 1936

NIETZSCHE, F. Segunda consideração intempestiva. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

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~ por Olethros em 15/04/2009.

2 Respostas to “Um pouco de teoria da História”

  1. A produção historiográfica contemporânea tem minimizado a importância de uma abordagem crítica das fontes, revelando verdadeira negligência para com os documentos em que se apoiam os pesquisadores no processo de construção do conhecimento. Quando se trata de documentos de arquivo, cujo sentido pleno não prescinde das relações que mantêm entre si e do contexto em que são produzidos e acumulados, os riscos de distorção são notáveis, a ponto de comprometer a própria cientificidade do trabalho do historiador. Por outro lado, há que se considerar o estatuto probatório congênito dos documentos de arquivo, que lhes confere um papel singular no universo das referências disponíveis.
    O suporte no qual são impressas as marcas da ação humana constitui o que os historiadores denominam documento, entendido por Ricoeur a partir do termo inglês record/registro/arquivo. “A história é esta ‘quase-coisa’ em que a ação humana deixa um ‘rasto’, põe a sua ‘marca’. Dá a possibilidade dos ‘arquivos’”. Ricoeur destaca o papel do “rastro” do passado, enquanto matéria na qual se inscreve a “passadidade” do evento, isto é, a qualidade daquilo que passou, na composição de uma imagem do passado. Dessa maneira, a re-figuração do texto de história visa não apenas algo ausente, mas um ausente anterior, ou, em outras palavras, trabalha tendo como pano de fundo o
    “enigma do passado”: ao mesmo tempo aquilo que foi (ce qui a été) e aquilo que não é mais . A solução do enigma, ainda que impossível, pode ser trabalhada em duas etapas singulares que determinam as “marcas do passado”: em primeiro lugar, o traço tem o caráter de impressão que funciona como “efeito-signo” da passagem (algo se passou deixando o vestígio de sua passagem); em segundo lugar, traz as características da semelhança, a relação, como na pintura o retrato e o retratado, entre a reprodução e o original (a analogia entre a passagem de algo e seu vestígio). Nesse sentido, o rastro, enquanto marca, abre seu potencial de referência: “enquanto deixada, ela (a marca) é/está presente”.

  2. Literatura recomendada:

    RICOEUR, Paul. 2007. A Memória, a história, o esquecimento. Campinas, Unicamp, 536 p.
    RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tomo I. trad. Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1994.
    _________. Tempo e narrativa. Tomo III. trad. Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1997.
    _________. “La marque du passé”. In: Revue de Métaphysique et de morale, nº 1, 1998.
    _________. “L’écriture de l’histoire et la représentation du passé”. In: Annales HSS, nº 4, juilletaoût,2000a.

    Mais recomendações:
    BAUTIER, Robert-Henri. “Les archives”. In: SAMARAN Charles (dir.). L’Histoire et ses méthodes. Paris: Gallimard, 1961. pp. 1120-1166. (Encyclopédie de la Pléiade, t. XI)

    ALBERTI, Verena. História oral e arquivos. In: SILVA, Zélia Lopes da (org.). Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. Sâo Paulo: Editora da UNESP, FAPESP, 1999. p.31-39.

    BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1983.

    COUTINHO, Eduardo. O cinema documentário e a escuta sensível da alteridade. Projeto História, São Paulo, n.15, abr.1997, p.165-171.

    DUCHEIN, Michel, RUMEAU, Simone. La classe d´histoire aux Archives. Paris: Archives Nationales, 1957. 27 p.

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