As vezes elas vêm…

Rio de Janeiro, Humaitá, dentro de um 512 ( Urca – Leblon), 18:32h

Ele estava cada vez mais atrasado para a aula. As míseras cinco horas de sono estavam cobrando seu preço, a Ilíada lhe parecia cada vez mais cansativa e o jovem decidiu fechar os olhos e repousar a cabeça sobre o vidro da janela. Próximo a ele, uma conhecida que há muito esquecera o nome lhe encarava com um rosto de inquietação. O embalo do Sono era confortante, mas não era suficiente para lhe desprender a consciência, ele se mantinha acordado. Gotas de chuva aos poucos começavam a cair e não demorou muito para o céu inteiro desabar. O ritmo da chuva somado ao ritmo da janela, era estranhamente cativante, e de repente elas vieram. Tem certas pessoas que dizem que nunca as têm, outras parecem ter tantas que podem até mesmo desperdiça-las, ele não era um destes, ainda que dispençasse idéias com mais freqüência do que gostaria.

Enquanto o ritmo era produzido na janela, ele cantava músicas para si mesmo. No inicio era um exercício de memória para com os cantores de seu passado. Mas aos poucos as músicas foram se tornando inéditas e ele se viu compondo mais uma vez. O ineditismo trazia lembranças também. Ele se via em um quarto no quarto andar. No fundo o cheiro de chuva. Dentro um amor terno e juvenil que brincava de compor. Ele gostava do Grave. Ela preferia o agudo. Ele queria um andamento de Valsa, ela queria um andamento de frevo. Eles foram felizes juntos, mas não para sempre.

Aquela tarde ecoava em sua cabeça. E enquanto o ônibus prosseguia a sua lenta e impassível marcha, o garoto regia uma orquestra de músicos invisíveis, e escrevia canções em sua cabeça que somente ele chegaria a ouvir, músicas que iriam se esconder da face de toda Criação e permaneceriam sozinhas no calabouço do inconsciente.

Rio de Janeiro, Laranjeiras, Um prédio na General Glicério, 4:02h.

Ele não se lembrava mais das músicas. O Sono não veio o buscar. Ele agora abria seu coração para escrever sobre teatro, mas não conseguiu se expressar. Espamos violentos ocorriam dentro de si mesmo, reprimindo-se por não cumprir com nenhum de seus deveres literários. O jovem, acuado na fria realidade, na fria sobridez de sua Ambrosia recusada, praguejava em sua escrivaninha. Lhe constrangia o cheiro real das coisas, os sentidos sólidos dos objetos. Seu ente chorava hipócrita e suavamente escondido, chorava as angústia dele como Homem limitado.  Se sentia obrigada a balbuciar incoerências na cama, ao jeito dos bichos. Numa glossolália que parecia mais um insulto a epifania dos santos. E se por um segundo você o escutasse, veria que tudo o que ele  pede é por mais idéias.

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~ por Olethros em 03/04/2009.

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