Os Campos Elísios

A morte nos circunda, com olhares e falar manso. Ela é sorrateira, como uma raposa de sorriso amarelado. Mas eu não temo o seu toque. Sou a própria vida pulsante e em meu sangue não posso ter fim. Não, de forma alguma temo o seu toque, ainda que ele esteja a nublar a tênue linha da mortalha que nos separa. Um dia ela tocará a todos nós, guiando-nos a uma terra jamais acariciada pelo sol. Onde caminharei solenemente para além do cipreste branco, além do Lethes. Vou contar piadas que farão Caronte sorrir, vou tacar gravessos para o grande Cérbero e rir da desgraça de Sísifo. Estarei duplamente vivo, pois meu senhor Zagreus, rebento do Olimpo, não conhece a angústia. Passearei nos bosques de minha avó, e beberei a memória dos homens. Apenas temo o rito fúnebre que me aguarda.

Temo a despedida dos vivos, assim como sou tomado pela incerteza quando penso pelo findar de meus próximos. Recuso aquela tediosa manifestação repulsiva, onde se tenta reprimir a dor como medida de respeito, ainda que se chore tormentas com o esforço. Lúcido demais, sóbrio demais. Quero que Péricles e sua oração caiam no esquecimento, que a desgraça caia sobre todos os pios cidadãos de bem. Não, não creio que me seja correto morrer sem fazer qualquer tipo de graça. Quando estiver morto, quero viver uma hierofania com meu corpo, subvertendo a ordem do profano em cada coração presente. Pois assim o fiz no passado. Ao me presenciar no encargo do rito de meu genitor, dançei em cima dos ossos e me refastelei na carne de meu pai, tendo sobretudo orgulho de estar vivo. E então, nessa catarse dionisíaca, congratulei aquele que fez a passagem, agora parte de mim, e lhe disse o quão belo foi ama-lo de forma tão intensa. Por fim, dei um sorriso amarelado, como o da própria morte, e com ternura tive a certeza de tê-lo ajudado em sua passagem, indicando a pedras a serem pisadas caminho que leva as terras sem sol. Eu sou um filho da terra, mas também do céu estrelado e não posso morrer realmente, nunca.

Nota fora do texto: Não sei da onde isso veio… Sei que voltar a redigir minha monografia tem me feito bastante inserido novamente dentro do tema do Orfismo e da religiosidade Grega, ainda sim, por mais que o texto acima perpasse por diversar citações órficas ele é sobretudo um elogia a vida, bem no sentido dionisíaco da coisa mesmo. Mas tudo ficou misturado, Dioniso Zagreus por exemplo, é o Dioniso Cretense adotado pelo órficos…

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~ por Olethros em 25/03/2009.

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