Carnaval

O zumbido do ar-condicionado o irritava, mas era melhor do que o calor escaldante que se encontrava lá fora. De forma suave, ele traçou o primeiro eixo na folha de papel e o complementou com traços fortes compondo a maçã de um rosto. Ele não sabia quem era ainda, mas gostava de se deixar surpreender. Mais alguns riscos precisos e lúgubres e logo dois olhos negros e vazios de carvão o encaravam, ele suava frio com o que havia encontrado. Seu coração batia forte, como se ressoasse com a bateria do bloco do outro lado da janela. Ele sentia o vibrar da superfície em que o misterioso rosto o encarava, e em seus olhos estavam impressos não uma expressão humana, mas o peso do mundo. Naqueles dois espaços negros de carvão se encontravam: a culpa por ter batido em uma amante, a morte de seu pai, a desistência da faculdade, as dores de seu joelhos esquerdo e a vergonha de sua mãe. Do outro lado da janela, o mundo não tinha peso, era carnaval e tudo o que se pensava era no ritmo da bateria.

Ele estava perdido entre narrativas…

Uma mulher olhava para seu médico e se perguntava se criaria coragem de chama-lo para sair. Em todas as consultas que ela marcava, alguma coisa parecia lhe dizer que havia um clima entre os dois. Será que ele tocava há todas da mesma forma? Será que aquele gesto era um procedimento médico mesmo ou era um carinho? Ela não podia falar, parte da excitação de seu mês era esperar pela estranha apreensão tensa que se situava durante o check up mensal com seu clínico. Falar ia estragar a tensão, estragar tudo. Será que ele não era jovem demais? Será que sua condição de saúde piorara só para que houvesse mais encontros? Ela ascendia um cigarro enquanto lembrava de forma triste que ele tiraria férias no carnaval.

Não havia chance de dormir, há tanto para se contar, tantas histórias…

Um homem havia entrado no baile de forma resoluta. Ele haveria de matar de novo esta noite, já estava cansado de esperar. A primeira vez foi justa: um rebelde haitiano que partia para cima de sua unidade. Ele tocou no corpo quente do jovem negro até esperar que o mesmo esfriasse, a partir daí não conseguiu mais se conter, sabia que havia encontrado seu caminho. No mesmo mês, antes de acabar seu período servindo ao exército, atirou em um recruta enquanto ele procurava por um lugar onde pudesse comer outro homem. Este, ele justificava, havia sido por justiça divina. Mais uma vez, despiu o corpo do jovem e o abraçou enquanto sentia a vida o abandonando. Voltava agora a sua cidade quente e populosa. Os bailes de Carnaval tinham duas grandes vantagens: haviam muitas pessoas e haviam muitas máscaras. Entre Colombinas e Pierrôs, apenas uma coisa era certa: os corpos pareciam ficar mais quentes nas noites de Carnaval.

Ainda não conseguia dormir, a cada apagar de olhos, novas histórias eram deslumbradas, novos segredos para se admitir, novas personagens para se acreditar. Ele tentava adormecer mas já era quase uma manhã quente, e à distância já se faziam ouvir as primeiras baterias anunciando a aurora.

Nota: Hoje quando consegui dormir tive um sonho bizarro, uma narrativa na qual eu não fazia parte, acordei de sobre-salto e tentei retornar ao meu sono, me deparei com uma nova história inteiramente diferente mas igualmente sem mim. Sonhei com crônicas essa noite, e como uma pessoa movida por sonhos isso me assustou…

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~ por Olethros em 22/02/2009.

2 Respostas to “Carnaval”

  1. “Ele tentava adormecer mais já era quase uma manhã quente”
    não seria “mas”?

    Enfim, te amo, realmente bizarro como sua vida é influenciada pelos seus sonhos. Não é de se admitir que você deteste o materialismo 🙂

    Ah, e achei a última história particuparmente interessante.

  2. Obrigado… editado!

    e sim, eu sou alguém consumido pelos meus próprios sonhos.

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