A Mão e os Olhos

Era uma quarta-feira de manhã, um ex-aluno meu havia me chamado para dar uma palestra no colégio de surdos, convite que demorei a aceitar pela minha incapacidade na linguagem dos mesmos, ficava preocupado em como os alunos reagiriam e por algum motivo estranho, achava um pouco rude dar uma palestra para deficientes auditivos. Entretanto, ele havia me explicado que eu contaria com a ajuda de um tradutor, que reproduziria todo o meu discurso no mesmo instante, porém a idéia ainda me causava arrepios e em grande parte eu continuava um tanto receoso. Chovia muito naquela manhã, o mundo parecia desabar sobre si mesmo em forma de barulhentas gotas que desciam quase na horizontal pela força do vento. Na hora que a palestra fora marcada ainda não tinha chegado ao local, e quando finalmente consegui, não pude apreciar a beleza do gigantesco casarão, nem notar o lúdico silencio que me circundava.

Havia uma certa ansiedade no ar, ou isso eu imaginava, não costumo a presenciar esse tipo de coisa, mesmo depois de longos anos de magistério. Aquela audiência não era apenas diferente, havia algo de especial ali, na maneira que aquelas pessoas me olhavam. Como seus olhares eram profundos e como era deslumbrante a forma como estes se apuravam a cada gesto meu. Me sentia desnudo, rigorosamente explorado pelo olhar ávido daqueles que eram incapazes, ou ainda melhor, daqueles que não necessitavam de ouvir. Sentia quase que vergonha de estar ali, dando minha palestra tola diante de olhos tão poderosos que me liam de forma voraz e ansiosa.

Discursei sobre identidade, sobre como a Antropologia enxergas as diferentes afirmações identitárias em uma sociedade massificada e contemporânea. Ao fim, mesmo com um tema geralmente pouco interessante para os jovens, pude relaxar e me descontrair por inteiro… De certa forma, me sentia acabado, sugado, pois se olhos eram janelas, eu havia sido subitamente tragado por olhos ávidos de conhecimento altamente sofisticado e concentrado, destilado através de um único sentido. Meu velho palitó, transparecia as gotas de suor e preocupado, meu ex-aluno me levou para tomar um ar no lado de fora.

O pátio era muito belo, e com o término da chuva estava até bem cheio de crianças brincando – É a hora do recreio – disse meu amigo. E eu me sentei em um velho banco de pedra, desses que se encontram ainda em muitas praças, e finalmente tomei fôlego. Há muitos anos que não visitava um colégio, e costumava a apreciar o gesto de observar as crianças brincando, vê-las em liberdade, fazendo o que a maioria delas gostaria de fazer durante minhas aulas. Adorava ouvir seus gritos de felicidade… e foi então que eu percebi. Não havia gritos naquele local. Haviam dezenas de crianças e no entanto não gritavam, ao invés disso faziam incríveis balés com suas mãos, umas paras outras. Havia tanta vida ali, tanto movimento! E no entanto era tudo sublime, oculto, menos perceptível. Ocorria ali uma cacofonia de gestos, uma cacofonia de afetos, brigas e brincadeiras. Havia uma melodia de mãos que guiava a vida daquele local, e nos deixava em deleite pela altura do barulho e a força e forma de seu significado.

Saí de lá, sem os meus receios, sem os meus preconceitos, sem nada… Posso afirmar que saí de lá despido, tudo que era meu ficou no poderoso olhar daquelas cacofonéticas criaturas, que depois de velho, me ensinaram novamente o que era se expressar.

Nota do autor: Por morar em Laranjeiras, bairro onde se localiza o maior instituto para Surdos e Mudos no Rio de Janeiro, acabei me acostumando com a presença constante de seus alunos. Certo dia, enquanto ia para a faculdade fui cercado por eles no ônibus. Haviam surdos do meu lado, na minha frente e atrás de mim. Todos conversavam enfáticos e energicamente ao meu redor. De certa forma aquilo me fascinava e me consumia com tamanha verborragia manual. Este texto foi escrito quando cheguei em casa, precisava relatar de alguma forma esta experiência.

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~ por Olethros em 11/02/2009.

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