Angra dos Reis

Era possível ouvir sua respiração, calma e pontual. Lembro do gosto e textura de areia sob meus lábios, enquanto aguardava exausto  na praia. Esperava por alguém que me segurasse, esperava que sentiria alguma coisa, mas não houve nada. Sonhava com olhos negros e com perfume de lavanda, mas a maresia me fazia esquecer. Ao longe as gaivotas cantavam a volta dos pescadores… Ao longe, o sol se punha em uma tarde que havia durado para sempre. Chegava ao fim aquele verão e ainda esperava por alguma coisa.

Lembro do toque e do roçar de dedos que se seguiu. Da gota que escorria pela minha testa. Do arder de minha pele agora queimada. Esperava tão somente por mim naquele momento. Não havia mais tristeza, desespero, ou tédio. Só existia a praia e as suas memórias. Cada uma das conchas com um som, cada grão de areia com uma lembrança: um passeio de barco pela manhã, o cheiro de pipoca doce, o sorriso de uma criança na água. Cada vez mais eu me apegava a estas: como um náufrago à esperança de chegar em casa, como um suicída ao conforto dos telhados.

Era possível ouvir sua respiração, que anunciava a chegada dos pescadores. Lembro do gosto e da textura de lavanda sob os meus lábios. Do verão que escorria pela minha testa. Da maresia de minha pele agora exausta. Dos sons das gaivotas nas conchas, e das memórias que encontrava em seu toque.

Ao longe, o sol sumia em uma tarde que seria a última e o conforto dos náufragos estava agora nos telhados.

Era o fim do verão.

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~ por Olethros em 04/02/2009.

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