Devaneio fugaz

Ela olhava o campo interminável que se extendia além do horizonte. A vegetação era verde mesclada com um amarelo de queimadura de sol, a paisagem passava rápido, mas não acabava nunca. Fazia frio dentro do trem e havia um estúpido barulho de televisão na outra cabine, uma espécie de noticiário que repetia frases sem nexo com um barulho de estática. O gosto de nicotina não saía da sua boca, embora ela nunca tivesse fumado um cigarro.

Aquela era uma viagem de devaneios estranhos, ela sabia que havia entrado há poucas horas no trem, no entanto não compreendia direito para onde ele ia, ou por que estava nele. Ficava encarando a janela, seu reflexo contra a paisagem ligeira que perpassava. Ela analisava as linhas de seu rosto, os cabelos castanhos lisos e compridos, a escuridão de seus olhos. Tudo era muito plástico, de alguma forma havia uma sensação forte de reconhecimento diante de suas feições, entretanto esta era intercalada pela certeza de que o que via não era nada mais do que uma foto de alguém distante.

O sol estava se pondo nas colinas mais a frente, e aos poucos as estrelas começavam a aparecer, primeiro lentamente, passíveis de conta, até atingir o número vertiginoso daqueles locais afastados das cidades, onde ainda é possível sentir medo do céu, e ao mesmo tempo, se deslumbrar com ele.

Carolina (esse era mesmo o seu nome?), havia desistido da estranha sensação advinda de se contemplar. Em sua cabeça havia um caos efervescente, o mundo parecia um lugar afastado, como um palco ou uma tela. O casal que gritava na cabine a frente, nada mais eram do que personagens em um drama que não lhe tocava. Nada parecia lhe tocar ali, as vezes nem mesmo ela. O céu estrelado, propriedade dos poetas, não lhe metia mais medo, e o trem continuava sua marcha irreversível.

De madrugada, ela se esforçava para se lembrar do por que estava ali, e ainda que nenhuma resposta racional a alcançasse, ela sabia se tratar da mais trivial das coincidências, ela sabia que nunca deveria ter entrado ali, que seu nome estava errado, de alguma forma. Não se sentia vivia, mas com muito esforço decidiu ir até o corredor.

O vagão em que estava era bonito e deslizava de forma suave para um trem, havia um tapete carmim por todo o corredor. Os avisos na parede não faziam sentido, eles eram apenas uma série de rabiscos e letras que pareciam coesos ao primeiro olhar, mas não significavam nada. Os barulhos nas demais cabines já haviam cessado, conforme ela passava por suas portas, até chegar a entrada do próximo vagão.

Delicadamente, Carolina (de novo esse nome?) girou a maçaneta para a esquerda, e para sua surpresa, não estava mais em um trem, e sim em uma rua. O que mais lhe assustou foi a naturalidade desta transição, ela já não se sentia como real mesmo. Havia um gigantesco casarão em sua frente, que lembrava uma capela, haviam crianças lá dentro, e barulho, em grande parte havia inocência também.

Se afastando do local, depois de passar por uma quadra e uma pequena rampa de skate, ela chegou em um pequeno bosque, com mesas e cadeiras feitas de pedra. Todos os locais lhe pareciam familiares, mas faltava-lhes a mesma tangibilidade de sua própria história. Não havia por que estarem ali, não deveriam ser familiares a ela, mas no entanto eram tão irreais quanto sua presença.

Em um trem que corria de madrugada, um homem estava adormecido. Em sua cabine, havia uma foto de uma garota que ele nunca conheceu… Ao seu lado, um velho ouvia notícias em um rádio de pilha. O homem se contorcia em seu sono, ele cheirava sua infância e lembrava de verdades que nunca aconteceram.

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~ por Olethros em 27/01/2009.

Uma resposta to “Devaneio fugaz”

  1. […] a ela, mas no entanto eram tão irreais quanto sua presença. … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

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