Entre Poe, Shakespeare e um presente

Era uma daquelas tardes de setembro, quando o céu toma a cor pálida das pupilas daqueles que já se foram. Chovia muito lá fora,  e as janelas fechadas da casa em Baltimore traziam um ligeiro cheiro de mofo. David estava em seu escritório, e arfava enquanto escrevia. Suas mãos agarravam com força a pena que deslizava sobre o papel. Estava terrivelmente empolgado com a noite anterior. O teatro da cidade havia recebido uma trupe de atores ingleses, e nutrido de sua paixão pela arte, David se pôs a caminho. O que ele encontrou naquela noite foi muito maior que o êxtase de assistir um espetáculo de Shakespeare. Naquela fria noite de Outono, ele comungou com uma deusa, a Rainha de Arcádia, Titânia.

Elizabeth Arnold, nascida em Londres, era realmente uma das mulheres mais belas do velho mundo, capaz de hipnotizar multidões com seus gracejos sedutores. Naquela noite, ela interpretava uma Rainha. E como seu cargo lhe pedia, fez muitos súditos. Na platéia, havia particularmente um homem que esta achou interessante, não porque era bonito ou parecesse culto, mas porque seus olhos brilhavam toda vez que esta aparecia. O que dava razão a seu personagem, lhe dava mais orgulho, e a incentivava à incorporar sua majestade com cada vez mais perfeição.

David procurou saber algo sobre a moça que representava tão bem e que se parecia tanto com um anjo – o que o levou ao seu camarim ao término da peça. Como pôde se surpreender ainda mais? Como Elizabeth poderia ser ainda mais bela sem maquiagem? Ela caminhava com leveza, e se dirigiu a David com um tímido, mas sedutor, sorriso nos lábios. Ela lhe contou que não faria nada pelo dia seguinte, pois partiriam da cidade muito em breve. Sugeriu também que David a pegasse para lhe mostrar sua bela cidade, e claro, levasse um presente para ela. O homem não foi capaz de pronunciar um único som ao longo da “conversa”, mas consentiu com a cabeça. Logo, a dama se voltou e fechou sua porta.

Seu pai, o estimado general Edgar Poe, que havia ido ao teatro com o filho, percebeu o que se passava ali. Há muito pretendia que seu filho casasse com a jovem Daisy, filha do rico Sr. Smith. David, é claro, nutria esperanças de se livrar da sina imposta por seu pai desde pequeno, e sabia no âmago de seu ser que a hora havia chegado.

Ele ouviu renitente tudo que seu pai despejou em seus ouvidos, fingindo concordar para que a conversa não se prolongasse. Mas a grande verdade é que já estava tomado pelo gracejo cínico de uma atriz de teatro. Procurou palavras para exprimir o que sentia, mas simplesmente não encontrava. Logo, caiu em um sono profundo e saboroso, onde sonhou que também era um grande ator e interpretava o Rei Oberon.

Foi acordado com um barulho de trovoada, já no dia seguinte. A chuva forte o impedia de sair de casa, tendo que aproveitar o tempo longe de Elizabeth. Felizmente as palavras, ao menos, chegavam em sua mente. Pegou uma pena e um tinteiro, que ficavam logo em cima da escrivaninha e começou a bailar com palavras:

“Titânia, por que fugistes para Arcádia, quando podias encontrar refúgio aqui, em meu lar? Em meus braços? Por que Robin Goodfellow não te fez despertar em minha frente? Quem sabe assim poderia eu ter sido um homem mais feliz? Que prazer tem o destino em me torturar com tua presença incapacitante, olhar jubiloso e sorriso visceral? Por que a doce Elizabeth tinha que ser justamente a Rainha? Por que ela não poderia ser simplesmente de verdade? Assistir àquela peça foi como beber um doce vinho em uma tarde de primavera, vertendo lágrimas de sangue. Mas, no final, eu fui um tolo. Como pude não me expressar na frente de Elizabeth? Como pude deixar meu medo me envolver como um carrasco?”

Hoje, se a chuva passar, eu irei até o teatro. E pedirei para que fique em Baltimore para sempre. Não, isso seria egoísmo de minha parte. O mundo merece ver uma obra tão bem representada. Um anjo interpretando a Rainha das fadas. Que a mágica continue, mas hei de me tornar seu Oberon, ou ao menos seu pobre burro.”

Seu pai entrou pela porta, rispidamente – era forte ainda – os anos haviam o enrijecido, mas era um bom homem, só fazia o que achava ser o melhor para seu filho.

– Sei de seus planos para com aquela atriz esta tarde. E sei que, apesar da conversa de ontem, tu pretendes me desobedecer e ir. Filho, já perdi uma pessoa amada nessa vida, eu te peço que reflita. O que sabes sobre essa moça, rapaz?

– Eu sei que eu a amo.

– Amas nada, és apenas jovem. E os corações dos jovens são realmente moles e de fácil coerção. Mas te peço que tenha força! O amor nos prega peças rapaz: quando descobrires, será tarde demais, já estarás sem vida, viajando o mundo atrás de um grupo de teatro. Filho, és a única coisa que eu tenho. Não agüentaria te ver partir por causa de uma mulher. Você é quem deve domá-las, não o contrário, do contrário não seria um homem digno de meu nome!

– Sim papai. Eu não irei vê-la.

O General sorri, e sai do escritório. Deixando o jovem Poe com seus pensamentos e sua escrita.

“Um presente ao menos, ela me pediu um presente. Creio que meu pai tenha razão, mas no momento não é esta quem me move. Como disse Dante, certa vez: ‘o amor é a força motriz do mundo’. Mas como posso amar tanto e tão rápido? Como posso mostrar isto a ela e ao mesmo tempo não partir? O presente tem que ser um inesquecível, algo que faça com que esta compreenda a dimensão de meu sentimento. Ele tem que estar impregnado dele, untado à minha paixão. Jóias e flores são efêmeras demais. Vinho, não tão precioso. Preciso dar algo que seja o meu amor, puro e simplesmente isto. Esculpido como um monumento de adoração à deusa, ou melhor, À Rainha Titânia.”

Era tarde, e o homem (que ela descobrira se chamar David, ao perguntar para o dono da casa de espetáculos que observou o encontro anterior) não havia aparecido. Isso a decepcionou bastante, ela tinha certeza que já o possuía, que o homem realmente já a amava. Ela estava feliz com esse pensamento. E depois de um dia de espera, ela parecia ter se enganado.

Estava em um hotel próximo ao teatro, na varanda, observando o movimento da cidade. A noite estava quente, e a chuva já tinha acabado há algumas horas. Havia um casal conversando, dentro de sua carruagem. Um homem lendo um livro de Blackwood. E duas moças andando em direção a uma casa na esquina. No centro havia a praça que, exceto pelo leitor, estava vazia. Aos poucos, um homem de terno azul cruzou a rua vagarosamente com uma pequena caixa na mão. Por um momento Elizabeth pensou que fosse David, mas este pensamento foi posto de lado, graças à longa barba do transeunte. Apesar disso, ele entrou no hotel. Logo, a rua ficou vazia, a carruagem havia passado, assim como as moças. Só o leitor de Blackwood, imerso em um mundo fantástico, permaneceu. Estático. Como uma âncora na realidade.

– Senhora Arnold? – Gritou uma voz do corredor.

– Sim? – Disse Elizabeth com descofiança.

– Temos uma entrega para a senhora, é de um certo David.

– Pode entrar, está aberta. – O homem de terno azul que se encontrava lá embaixo agora pouco, entrou no quarto.

– Ele pediu que eu lhe entregasse isto – uma pequena e bonita caixa de madeira – e pediu para que a senhora lesse a carta antes de abrir.

Elizabeth pegou a carta e deu algumas moedas ao entregador, que fez uma reverência e saiu. A caixa em si era branca, e parecia conter algo vivo, pois havia um certo movimento. Podiam ser objetos pequenos, é claro, ou, se ele fosse um mal-educado, um rato. Da mesma forma, ela abriu o envelope e leu seu conteúdo:

“Amada Elizabeth,
Creio que estás enfezada por eu não ter aparecido. Acho que foi medo de minha parte, ou amor por meu pai. Não isso são apenas devaneios tolos, eu sei o que aconteceu… Na verdade, foi altruísmo, sei que nunca seria capaz de compartilhar você com o palco, pois me apaixonei tão perdidamente, que teria receio que outros fizessem o mesmo. Por este motivo, eu creio que não possa ficar ao seu lado, eu desejo que todos vejam tua graça e se apaixonem por ti. Não, estou a escrever tolices, nada se compara ao que me aconteceu ontem. Com um único olhar, destruíste minha vida para sempre – a partir de hoje terei de amargar sobre o único momento em que tive verdadeira felicidade. Teu sorriso roubou uma parte de mim. E por mais que eu seja um fraco e que não seja capaz de te ver, quero que te lembres sempre de que tu és a única pessoa que eu amarei por toda minha vida. Quero que saibas, que em segredo, mesmo que me case, e que a rotina me mate., estarei ainda vivo para você, e somente para você. Minha Rainha.
Com todo meu amor,
David Poe”

Ela sentiu uma certa raiva, como se houvesse sido traída. Estava claro que ele era só um jovem que não conhece a vida, pois se ele realmente a amasse teria tido a dignidade de vir vê-la. Ainda sim, restava o intrigante presente. A caixa de madeira era relativamente simples, sem qualquer adorno. Ao abri-la, Elizabeth teve um choque. Não podia acreditar no que via. Sua vertigem derrubou o conteúdo no tapete branco, que aos poucos foi ficando mais rubro, enquanto o amor do homem era espalhado. No centro da caixa estava um pedaço de carne vermelha, gorda, que batia… e batia… e batia… e batia……

Nota do Autor: Este foi meu primeiro conto de verdade, há muitos anos trás. Essa semana Edgar Allan Poe comemorou 200 anos de seu nascimento. Sento que era o momento de desengaveta-lo, corrigir pequenos erros, e coloca-lo de volta para o mundo. Esta é uma história sobre o nascimento de Poe, sobre como seus pais se conheceram. Mas é apenas uma versão.

No mundo real, David Poe, conheceu Elizabeth no Teatro da mesma forma que retratei, porém no dia seguinte, este fugiu com ela, e passou a viajar o mundo com sua companheira. Algum tempo depois eles tiveram um filho, Edgar Allan Poe, que se tornaria um dos maiores escritores de todos os tempos. Pensei em alguma forma de homenageá-lo, e esta foi a escolhida.

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~ por Olethros em 21/01/2009.

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