Reflexo

“O Inferno são as outras pessoas.”
Jean Paul Sartre

Havia milhares de espelhos, novos apareciam a todo o momento, e muitos outros se quebravam também. Em seu Jardim, o Ba’Hara, os espelhos eram como janelas para a vida. E ela apreciava observá-los – apreciava – o prazer que extraía das paixões alheias enquanto permanecia anônima atrás de todos os espelhos da Terra. Na verdade, era sua maldição também, pois Aquele-que-vive-acima a havia condenado a nunca amar ou ser amada, nunca sentir o toque cálido de uma paixão, a viver para sempre de sua matéria original, Adamah (areia) e se esconder do fogo de Uriel.

Ainda sim, a paixão a fascinava, pois os rebentos de Eva nunca desconfiam de quem estava atrás de seus reflexos, eles se dobram sobre os espelhos, eles soluçam, choram e brigam, eles mostram sua centelha de vida, eles fazem tudo que ela não pode. Ás vezes ela desconfia de que, lá no fundo, todos eles soubessem, todos sem exceção, como se seu patriarca houvesse sussurrado ao ouvido dos filhos para que estes se mostrassem aos espelhos, apenas para provocá-la, como um tolo egocêntrico faria. E, talvez por isso, ela os odeie também, todos eles, pois possuem um pouco do sangue velho do patriarca.

Com Lila era diferente, a jovem possuía um olhar mais aguçado e um andar felino, ao jeito dos bichos caçadores. Olhava para os outros como gatos olham para suas presas quando brincam com elas antes de comerem. Não possuía vínculos com ninguém, e descartava o mundo com a facilidade que alguns trocam a roupa. Por isso tudo, ela a admirava. Não se mostrava diante do espelho, não se deixava nunca dominar, e quando penteava os cabelos pela manhã é como se retribuísse os olhares de sua observadora.
Logicamente, isto era tolice, coisa da idade. Uma filha de Eva nunca seria capaz de vê-la, e nem deveria, pois também a jovem continha a semente do que a mulher tanto odiava. Lila ainda sim prosseguia intrépida e fascinante. Com o passar dos tempos, se tornou mais independente, e foi viver sob suas próprias asas, após internar seu pai doente em um asilo. Atrás do espelho, a mulher se deleitava com tais atos, cada dia achando que por algum motivo deveria haver também uma semente dela na garota.

Ela lembrava da liberdade dos tempos de outrora, antes de ficar presa no Baha’ra, quando da primeira vez negou a vontade do Patriarca e de seu Criador. No tempo em que não havia espelhos, e ela pode se unir a Samael e gerar seus filhos, ou assim ela acreditava, pois descobriu, graças a eles, o quão terrível era sua maldição. Nenhuma criatura, nem mesmo aquelas que rasgaram seu ventre, seria capaz de amá-la, e ela nunca amaria ninguém, nem a si mesma. Estava fadada a vagar sozinha no Jardim dos espelhos, onde todo desespero e toda a esperança se mesclavam em um vazio de sentimentos e uma frieza infinita. Sua vida era um retalho de lembranças ruins, e ela era punida apenas por ter sido forte, por ter nascido igual. Também ela vinha do Adamah.

Mas a justiça não era uma qualidade do criador, e ele acatou as preces de seu suposto companheiro, banindo-a para longe do Jardim. Alguns dizem que a mulher foi vingada depois, quando Samael se fez de serpente e enrolou-se na árvore do bem e do mal. No entanto, estas histórias passadas não a levariam a lugar nenhum, já estavam gastas em sua memória de tanto serem remoídas.

Lila era uma destas, herdeira do fruto de seu consorte Samael, compartilhava algumas semelhanças com a mulher, que por tanto tempo copulou com esse Elohim. Era também forte, e nunca se submeteu a homem algum. Quando eles a visitavam em casa – e eram até bem numerosos –, a garota não se deixava ficar embaixo destes, cavalgando-os como uma amazona selvagem. No espelho do armário, a mulher se extasiava com tais cenas, com tamanha demonstração de controle.

Certa vez, um homem, assim como o primeiro deles, se recusou a ficar embaixo, e do espelho do banheiro, pôde-se ver que começavam a se agredir fisicamente. Lila era forte, porém não em músculos, e foi cruelmente subjugada. O mortal, irado, saiu ligeiramente pela porta, balbuciando palavras mordazes contra a garota.

E tudo que se via depois vinha de um pequeno reflexo de uma poça, na qual as lágrimas de Lila se juntavam. A gota escorria pela face corada de ódio, de uma menina que vivia do jeito dos bichos caçadores – que demarcava territórios e que se alimentava dos mais fracos. Lila amou aquele homem, ele despertou um sentimento duplo nela, que precisava tê-lo e subjugá-lo assim como foi feito consigo.

A mulher atrás do reflexo ficou, em grande parte, enraivecida com o ocorrido, talvez por que fosse vaidosa demais para admitir que o mesmo ocorrera com ela, ou talvez porque estivesse apenas chocada com a depredação masculina. De todo modo, ela observou calada enquanto a menina se vestia para ir encontrar aquele patife mortal.

Do espelho retrovisor de um carro, podia-se perceber que o dia era cinza e chuvoso, muito diferente da eterna imensidão azul do começo da criação. Lila usava um grande guarda-chuva negro, e suas mãos apertavam o cabo com força, quase estrangulando-o, como se, nele, pudesse descontar sua raiva e seu amor. Ao cruzar uma esquina pôde se ver da janela espelhada da portaria, que ela havia parado em frente a um enorme prédio de mármore branco.

Moderno, mas sem ser aberrante, de forma rígidas que não confrontavam a metrópole à sua volta.
A menina tocou o interfone e o homem autorizou sua subida. No grande espelho do elevador, a mulher pôde ficar muito próxima de sua admirada, ela percebeu a solidão nos olhos de Lila, solidão que ela conhecia bem, pois é uma característica dos seres que se recusam à submissão. A mulher vivia só, apenas com reflexos e desejos, por milhares de anos no Ba’hara, e ainda sim conseguia se identificar com a garota. A maquiagem, borrada pelo choro, mostrava outro sentimento comum: o ódio a tudo e a todos… O inferno são as outras pessoas, e a mulher sabia disso desde quando só havia uma.

Ela chegou no andar desejado, ajeitou a maquiagem e escondeu algo pesado em sua bolsa, colocando um pedaço de veludo vermelho por cima. O homem abriu a porta, altivo, perguntando o que ela fazia ali. A garota o empurrou com força, indo parar em um pequeno quarto-e-sala vazio. Sumiram. A mulher se desesperou, não havia espelhos na maldita casa? O que ela faria? Usar de seus preciosos poderes apenas para ver uma situação entre dois mortais? Isso seria passar da conta, se submeter ao castigo que lhe foi imposto. Desde quando se importava com os filhos de Eva? Desde quando algum deles era digno de atenção? Será que a garota realmente possuía uma semente sua dentro dela? Ela tinha um semblante que lhe era similar, mas mesmo assim… não era suficiente. Ela era a primeira mulher e não iria gastar seu poder com uma reles criança.

E eis que, talvez, por benefício do criador – se bem que se perguntassem à mulher, ela nunca diria que ele foi benéfico, e que na verdade teria sido influência dela própria -, uma gota de chuva no vidro da janela fez um espelho pequeno, mas perfeito, e a cena pode ser novamente assistida.

O local era vazio, apenas algumas caixas e um colchão, o homem aparentemente estava de mudança. Lila se encontrava no chão, de bruços, com lágrimas nos olhos, mas sem nenhuma expressão, sua roupa, estava em parte rasgada com o patife em cima dela. Ele gritava com ela enquanto a estuprava dizendo que aprenderia a ter modos, e que seria domada. Ela não reagia, estava apática.

Alguns minutos se passaram até o mortal maculá-la com sua semente. E depois disso, ele desmontou de suas costas, e a mandou ir embora. A garota continuava calada – na verdade, ficou na mesma posição por quase duas horas. Cansado, o homem deitou no colchão e esperou, até que finalmente o sonho tomou sua consciência e este adormeceu. De pouco em pouco, a cara apática de Lila foi se moldando, até se configurar em uma expressão primordial do ódio. Talvez tenha sido aí que a mulher a tenha reconhecido: de fato havia uma semente dela na garota, mas ainda não podia confirmar, ela também se corrompeu de ódio pelo homem e estava, inclusive, disposta a destruir sua vida ela mesma, não importando em desperdiçar seu poder em um mortal.

Mas a menina se arrastou vagarosamente até sua bolsa e, de lá, tirou um pedaço de veludo vermelho que, por baixo, continha, aparentemente, uma arma – não se podia ver muito bem, pois estava além do alcance do reflexo. De fato, o estrondo confirmou a natureza do objeto, e o homem nunca mais retomou a consciência. Logo em seguida o cano foi direcionado para cima, no queixo de Lila. De inicio, a mulher sentiu raiva – ou pena -, mas depois compreendeu. O tiro seco ecoou no edifício moderno, e assustou os pombos que se entregaram à tarde cinzenta.

O pequeno apartamento teve seu chão impregnado do líquido rubro, e a primeira mulher viu que, quando o corpo da criança atingiu o piso com um baque surdo, sua alma que saía continha sua semente. Era Mazikeen, sua primeira filha, encarnada em forma de mulher. A confirmação chegaria dali a pouco, pois seus filhos deixavam uma marca muito peculiar quando morriam, e a primeira esperava por ela.

No dia seguinte, alguns policiais e jornalistas foram até o apartamento, atrás de uma boa história, e, pelo reflexo da câmera, ela pôde ver quando os homens ficaram atônitos com os caracteres escritos no sangue. Eles nunca compreenderiam: esta língua estava, é claro, morta há milênios, mas ela soube exatamente o que os estranhos sinais diziam. Nunca esqueceria este nome que era grafado nas primeiras aldeias, nas portas das cabanas para manter os filhos de Eva protegidos das crianças dela. E todos à noite, sussurravam este nome, aterrorizados: “LILIM”, pois assim que eram chamados os demônios, filhos da primeira mulher, expulsa do Éden, consorte de Samael, conhecida uma vez pelo nome de Lilith.

Origem da personagem,  mitologias utilizadas e pequenas observações:

Lilith, ou Lilitu (no original), apareceu pela primeira vez como um demônio noturno da mesopotâmia que perseguia crianças do sexo masculino. Muito presente em várias culturas do Oriente Médio, assim como a mitologia Akadiana (Suméria) e babilônica. No entanto, o conto se enfoca na sua roupagem mais conhecida, que provém da mitologia Judaica. Lilith em hebraico significa “Fêmea noturna”, e ela surgiu nesse povo em um aspecto muito semelhante ao conhecido pelos mesopotâmios. No Midrashic Aggadoth (manuscrito hebreu com cerca de 3.000 anos), nos é contada a história de Lilith como consorte de Samael, e mãe de um grande número de demônios poderosíssimos conhecidos como Lilin. Essa forma de representá-la também aparece nos manuscritos do Mar Morto (4Q510 frag. 11.4-6a; frag. 10.1f).

A forma atualmente mais conhecida de Lilith é como a primeira mulher de Adão, como sabemos a Bíblia mostra duas versões diferentes da antropogênesis, e isto deu margem a muitas questões sobre quem seria, na verdade, esta primeira mulher e o que teria acontecido com ela. A fonte mais antiga que possuímos hoje é o Alfabeto de Ben Sirah (Século VIII), que mostra Lilith sendo criada junto com Adão, mas se recusando a se submeter a ele. O criador então a expulsa do paraíso, e faz uma nova mulher para o primeiro homem, mas esta é novamente recusada e destruída em seguida. Finalmente, Jeohvá pega uma costela de Adão e com ela faz Eva, que se torna a progenitora da humanidade. Dizem que fora do Jardim, Lilith teria mais uma vez sido consorte de Samael, e povoado a terra com seus demônios. Por isso teria sido amaldiçoada por deus, ele nunca poderia amar ou ser amada por ninguém, nem por ela mesma, ou por seus filhos. Depois de muitos contos ela deixa esse mundo e vai viver em seu Jardim de espelhos, o Baha’ra, de onde observa a humanidade e alimenta seu ódio pelos filhos de Eva.

Mazikeen é uma das mais famosas crias de Lilith. Na Divina Comédia, de Dante, ela é guardiã de um dos portais do inferno.

Este ao contrário do anterior é um dos meus contos favoritos. Não só pela minha paixão por mitologia judaica, mas pela forma dele em si. O que me motivou a escreve-lo foi uma pequena passagem sobre o Ba’hara, o jardim dos espelhos, e a idéia que eu poderia escrever uma narrativa sempre preocupado em buscar o ponto de vista de algum reflexo, me pareceu bastante instigante….

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~ por Olethros em 19/01/2009.

5 Respostas to “Reflexo”

  1. Muito bom o texto. A princípio achei que era a Desepero.. Esse especial do Sandman está me afetando rs.

    Ele é recente?

  2. Eu entendo o por que, mas acredito que seja o contrário, creio que Gaiman usou o conceito do Bahara para sua personagem, afinal ele é bem mais antigo do que sandman…

  3. […] filhos de adão através dos reflexos do mundo (sempre achei esse tema muito legal, e rencetemente, quando escrevi sobre Lilith, houve uma influência inversa e confundiram a personagem com a […]

  4. […] do primeiro deles. Como alguns vão perceber, ele é baseado no meu conto originalmente em prosa, Reflexo. Minha intenção com este post é mostrar mais ou menos o que tenho feito dentro deste campo. Vale […]

  5. […] excelente editora. Observem com o quadrinho ganhou mais fluidez, e como ele parece bem menos com o conto original do que a versão anterior. […]

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