Mnemosyne e o belicismo

Às vezes é como um machado, mas nem sempre percebemos. Aquele dia havia sido extremamente cansativo. Após um longo dia de trabalho, cheguei entorpecido à faculdade, onde pude assistir aulas inesperadamente boas, sobre tópicos que muito me instigavam. Ainda sim, o senso de familiaridade me tomava nas explicações e aos poucos a memória começava a trabalhar. Qual foi a minha surpresa ao perceber que aquilo com qual me identificava tanto, era algo que já possuía em casa e que o deleite era na verdade uma jocosa lembrança de algo próprio, talvez empoeirada nas dobras de minha mente. Os livros citados e requisitados na aula já faziam parte de minha coleção e rumei para a casa sabendo que iria gastar menos aquele semestre.

A noite era fria e já havia chovido bastante ao longo da tarde, pensava a respeito da natureza do tempo e sobre a impermanência da memória. Há mais de um ano, esperava me mudar de casa, e o tempo cobrava seu quinhão de minhas coisas guardadas em caixas de papelão. Direcionei-me até a sala e fui pegar meus livros encaixotados e carentes, cansados de lerem a si mesmos (pois todos sabem que para manter um livro saudável ele deve ser lido com freqüência, pois todas as páginas precisam de alguns minutos de ar puro. Outro fato relevante que deve ser acrescentado a esta tese é que os livros quando fechados, também sonham, e em seus sonhos, eles lêem a si mesmos, mas em algum momento é necessário desperta-los deste torpor, pois livros enferrujam com o tempo).

Rasguei a primeira caixa, como um machado. E comecei a procurar meus eternos “prozacs” retangulares, mas nela só achava quinquilharias, restos de escritos e cartas de amor. Cartas de amor? E eu que pensei que tivesse perdido todas, ou as esquecido com a dona, mas não é que sobraram algumas? E no momento da descoberta é como uma lâmina, as memórias nos cortam rapidamente, ligeiras em passar pela nossa cabeça… A falta que elas me despertam, as lágrimas que se suicidam suaves de meus olhos. Eu percebo o quanto guardo certas coisas em mim. O quanto sinto falta. O quanto muitas vezes eu me pego pensando no meu passado e sorrindo. Pequena lembrança, grande lembrança, elas saltitam em minha cabeça como filhotes fora da jaula. A doce nostalgia do que poderia ter sido. Afinal, por que as pessoas se vão?

Me lembro de meu filho, enquanto ele chupava forte o meu dedo em busca de leite. Me lembro do sorriso gentil estampado nela quando despertava. Me lembro de tanto. Há tanto também que minha memória inventa. Me lembro de minhas bodas de ouro, mesmo tendo ficado com ela por apenas um ano. Me lembro de nossos netos e de nossa velhice… Sinto saudades do que nunca aconteceu.

Abrir velhas caixas, ler antigas cartas de amor… É não se reconhecer em forma plena, e olhar para uma versão bizarra e distorcida de si mesmo no passado. É chorar e vibrar pelo que poderia ser.

Nota: Nunca gostei desse texto. Ele é bastante datado para mim, de um período onde eu era uma versão bizarra e distorcida de mim mesmo. Ainda sim, esse blog precisa de movimento… E não é só de coisas boas que se vive…

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~ por Olethros em 16/01/2009.

3 Respostas to “Mnemosyne e o belicismo”

  1. Uma versão bizarra e distorcida, sim, mas não menos interessante.

    Como um bom e velho pão-duro, digo que não há nada como ir para casa sabendo que vamos gastar menos.

    Cara, adorei essa teoria dos livros que lêem a si mesmos, muito divertida de se imaginar real.

    Ah, acho que as pessoas vão porque vão. Não porque deveria acontecer, ou por um ou outro motivo. Só vão, sem mais.

  2. “Me lembro de minhas bodas de ouro, mesmo tendo ficado com ela por apenas um ano. Me lembro de nossos netos e de nossa velhice… Sinto saudades do que nunca aconteceu.”

    Esse trecho em particular eu achei fantástico, além da personificação dos livros lendo a si mesmos. Mas o que mais me cativou foi a forma de tornar poético o cotidiano banal, de arrumar os livros velhos e encontrar coisas inesperadas.

  3. Obrigado pela gentileza de vocês. Realmente tem partes legais sim. Mas sei lá. Acho que acabou não saindo da forma que eu queria..

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