Nove-caudas

O machado zumbia no ar, cortando-o, e o tronco logo em seguida. Era rítmico e depois que se pegava o jeito ficava mais fácil do que no inicio. A madeira se partia ao meio e então colocavam-na na pilha dos terminados. Logo se pegava outro tronco e era dado prosseguimento ao ritual. As tardes se passavam assim. Todo dia um pouco antes de Amaterasu fugir do céu, o trabalho com os troncos se iniciava. Na verdade, ele havia realmente se tornado uma forma de relaxamento, pois não exigia muito esforço mental e se podia parar para refletir e meditar.

Naquele dia o céu estava límpido e claro, não havia traços de que o tempo iria mudar e provavelmente a noite poderia ser aproveitada com a contemplação das estrelas e da caminhada de Tsuki-yomi pela abóbada celeste. Não seria preciso juntar muita lenha, pois aparentemente o clima não iria ficar tão frio. Seu braço já não sentia mais a dor de bater com o machado, e aquilo de fato o ajudava a se aperfeiçoar na sua técnica com o bastão.

O homem que trabalhava na beira do bosque era esguio, de traços belos e marcados de forma suave, quase feminina. Seu cabelo estava preso de maneira desgrenhada, com pouco cuidado. Suas roupas eram um pouco velhas, e estavam sujas de barro, assim como suas sandálias. Havia chovido na noite anterior, e a região em que vivia costumava a ficar bem lamacenta. De fato, o homem seria extremamente bonito se a vaidade fosse uma de suas características, mas a ausência desta fazia-o parecer um aldeão comum.

Logo adiante ao local em que cortava a lenha, havia um Torii vermelho, de frente para o bosque. Seus dois pilares ainda mantinham uma cor viva e vibrante, mesmo com tantos dias ao sol, e seus Kanjis se mantinham perfeitos. Era como se o próprio Inari, mantivesse o objeto intocado, e abençoasse sua madeira com um vigor infinito. Este tipo de monumento, era muito comum em frente aos templos da região, mas este era o único que ficava de frente para o bosque. Diziam que era sagrado e que muitos Kamis habitavam o local, a população da aldeia costumava sempre a deixar oferendas para estes sob a égide do Deus.

Hikari havia crescido ouvindo todo tipo de histórias a respeito do bosque e sinceramente não acreditava mais na maioria delas. Desde pequeno ele era obrigado a passar as tardes longe de sua casa colhendo lenha e encarando as belas arvores por detrás do Torii. Algumas vezes, de noite, ele de fato ouviu algumas coisas: sons estranhos e lúdicos em sua maioria, e sentiu uma grande atração pelo local, mas costumava a descartar tais coisas como devaneios. “Se tengus e kitsunes existiam, com certeza não seria ao lado de sua casa” ele retrucava. Ainda sim, estas histórias o fascinavam e constantemente pensava a respeito das mesmas enquanto trabalhava.

Como de costume a noite desceu rápido, e com ela uma leve brisa que deixaria Hikari com frio se este se mantivesse com seu quimono de trapos. O homem então cessou sua tarefa, e começou aos poucos e em pequenas porções, a levar a lenha de volta para a aldeia. Andava apressado, mas com cuidado para não escorregar na lama, e fazia uma grande pilha um pouco em frente à casa de seu avô, onde outras pessoas pudessem também aproveitar da madeira se estivessem em necessidade.

Poucas vezes elas o faziam, pois por algum motivo triste, o rapaz nunca fora muito bem visto pelos outros aldeões. Exceto por seu avô e por uma bela menina que costumava a brincar com ele quando criança, Kaoro. Pela qual Hikari mantinha uma afeição infantil desde a mais tenra idade. Ele tentava manter seus sentimentos em segredo embora sempre ficasse desconcertado ao vê-la e se ruborizava enquanto gaguejava seu nome. A menina achava que esse tipo de atitude muito meiga, e costumava a considera-lo inofensivo por isso. Ainda sim, já havia deixado a oportunidade de cativa-la ir embora e agora a mesma estava noiva de um outro homem. Ele se sentia feliz por ela, pois achava que no fim, eles eram mesmo apenas amigos de infância e que de forma alguma conseguiria agüentar muitos dias do lado dela.

A verdade é que ele nunca se importou com o que achavam dele, e apesar de muitas vezes se sentir solitário e ansiar por uma companheira, ninguém lhe parecia adequada ao momento, pois ele tinha o péssimo hábito de prever o defeito dos outros, e em grande parte as pessoas percebiam isso, e por essa razão se afastavam dele. Sempre acontecia quando encontrava uma menina, ao prever o defeito das mesma, Hikari criava uma antipatia dentro de si mesmo, e já desistia da garota, antes mesmo de conhece-la a fundo. Assim prosseguia com sua vida, se queixando de estar só.

Tsuki-yomi já havia iniciado sua jornada pelo céu noturno, punido pela radiante Amaterasu, incapaz de contemplar seu irmão depois da morte de Uke Mochi. Hikari refletia sobre o par de irmãos que o contemplava do alto ao terminar seu serviço. Em seguida, se dirigiu à pequena casa de chá da aldeia, que estava naquele momento estranhamente lotada. O cheiro de saquê agredia seus sentidos, assim como o barulho da multidão. Periodicamente as coisas ficavam assim por lá, todo ano, durante o festival do arroz, dezenas de pessoas passavam pela aldeia em direção aos templos maiores de Inari. Aquele não foi diferente, pessoas de diversos locais, abarrotavam a humilde casa de chá, conversando em estranhos sotaques umas com as outras.

Ele se sentou em uma mesa no canto e pediu que lhe servissem um pouco de tofu.  Pegou seu hashi, e observou os seus arredores. Havia um grupo de homens bem vestidos, aparentemente samurais, que se divertiam enquanto caçoavam uns dos outros após muitos goles de bebida. Eles estavam muito animados e não pareceram se incomodar com a presença do jovem. Suas expressões ruborizadas mostravam que a embriagues estava em seu auge.

Alguns agricultores também se encontravam próximos e estes conversavam sobre as lendas dos campos, e sobre as bênçãos de Inari em suas colheitas. A maior parte deles eram bem mais velhos que Hikari, e a idade tornava as histórias destes homens mais sábias e incrivelmente similares.

As gueixas que trabalhavam na casa agiam rápido nessas ocasiões e serviam de forma eficiente, conseguindo agradar a todos os presentes. Até o jovem, comumente mal tratado recebia um tratamento mais justo nesses dias de multidão, talvez por que não lhes sobrava tempo para provoca-lo. Não que ele ligasse, nunca se importou muito com as opiniões alheias e as jovens nem eram assim tão bonitas para ele.

A noite passava, e Hikari comeu demoradamente sua refeição, apreciando o sabor amargo sob a sua língua, ele costumava a gostar de uma coisa nesses dias de viajantes, ouvir as histórias dos andarilhos. Ele nunca se sentiu bem preso à aldeia em que nasceu, sempre teve um desejo secreto por procurar seu pai, que dizem ter sido um destes homens em peregrinação. Sua mãe havia morrido no parto, e talvez por isso as pessoas o vissem daquela forma, como o garoto filho de um estranho, que roubou a vida de umas das mais graciosas damas da aldeia. Em seu ínterim ele esperava que um dia viessem para busca-lo. Seu avô morrera há poucos anos e nada mais lhe prendia àquele lugar.

Um vento gelado roçou as costas do quimono de Hikari, alguém deveria ter aberto a porta, o jovem se virou, e o que ele viu estava acima de tudo o que sua vida já havia lhe preparado. A mulher vestia um quimono vermelho e azul de ceda, com bordados finos, que combinavam perfeitamente com seus movimentos delicados. Seu rosto branco, possuía traços afunilados suaves, belos, e seu cabelo era liso e estava preso num coque bem feito. Havia um pequeno sorriso em sua boca, que apesar de respeitoso, parecia um deboche a pobreza do lugar. Seu andar era elegante, esguio, leve e majestoso, mas podia se notar malicia no mesmo.

Ela atravessou o local e se sentou em um canto também, deixando os presentes ruborizados. Os aldeões, mais velhos, abaixavam suas cabeças diante da beleza da moça, assim como a maioria dos homens mais humildes. Os samurais, com o saquê em suas cabeças começavam a implicar uns com os outros, como se quisessem provar algo para a jovem que chegara. Hikari era diferente, seu fascínio o impedia de desviar o olhar, mas em compensação o deixava preso, enfeitiçado pela mágica da mulher. Ela lhe retribuiu os olhos e sorriu, e logo mais passou a contemplar sua refeição ignorando os demais.

O tempo passou ligeiro, e a encantadora visitante acabou rápido sua refeição, deixando o local com a mesma graça que a fez entrar. Os aldeões começaram a sussurrar entre si e a contar histórias. Diziam que já haviam visto moças como aquelas, e que geralmente elas eram um sinal de mau agouro, pois geravam discórdia onde passavam e sua beleza era objeto de cobiça. “Poucas vezes elas são realmente mulheres”, eles diziam, “pois tamanha beleza não pode ser natural, isso é obra de uma kitsune, elas nunca deixam de pregar peças nos homens”.

Hikari sempre fora fascinado por histórias de Kamis, e as kitsunes eram particularmente um assunto que lhe revolvia a imaginação. Donzelas astuciosas e com a elegância digna de um deus, que bailavam pela noite provocando peças e devorando corações. E faziam-no com todos, do mais rico dos Bushi até o mais pobre monge, e isso lhe fez recordar da história que ouvira certa vez do relacionamento de um monge com uma kitsune, uma de suas fábulas preferidas.

Hikari bebeu um pouco mais aquela noite, estava deleitado pela bela mulher que tinha visto e sonhava em possuí-la. A passos trôpegos conseguiu chegar até a sua casa que para a sua surpresa não tinha nenhum sinal dos troncos que havia depositado ao longo do dia. Com a mente nublada deixou para pensar nisso no dia seguinte, entrando sem retirar as sandálias e buscando imediatamente o repouso merecido.

Naquela noite Hikari teve um sonho vívido, ele se viu despertar em baixo do torii na frente do bosque. Suas roupas eram elegantes, de uma seda vermelha fina, digna de um nobre, e bordado sobre ela estava um estranho kanji. Ele caminhava com um porte elegante em direção as arvores como se fosse seu proprietário e era uma noite escura. No céu, as nuvens formavam uma gigantesca imagem de Osano o-nomikoto, deus da tempestade, que assoprava ventos agitados fazendo todo o bosque farfalhar em uma melodia suave, que acalmava o espírito e agradava aos ouvidos do homem. Ele conseguia enxergar graças a uma pequena chama que se encontrava distante, no interior do local.

Ele caminhou por algum tempo e percebeu que a chama, de cor púrpura, era na verdade uma série de pequenas fogueiras que lhe guiavam o caminho bosque adentro. Elas tremelicavam e dançavam com a música das folhas agitadas, todo o lugar parecia vivo e majestoso, como um gigantesco palácio natural, com as arvores servindo como majestosas colunas e um tapete de folhas avermelhadas pelo tempo. Às vezes sentia que estava sendo vigiado, e de fato era capaz de ver uma silhueta sombria, que se esgueirava de seu olhar através da escuridão. Ainda sim ele seguia adiante.

Quando finalmente chegou, o local era uma grande clareira, onde até mesmo o céu estava límpido e coberto de estrelas. A sua volta sete fogueiras consumiam armações de madeiras que formavam símbolos. Todos lhe pareciam estranhos. As chamas produziam formatos diferenciados às vezes assumindo a forma de mulheres e elas produziam uma fumaça que também tinha vida própria. Hikari se aproximou da fogueira vermelha e sua presença repelia a fumaça e o fogo e quando tentou toca-los ambos se esvaíram. O mesmo ocorreu com todos os símbolos que pareciam temer o toque do homem. Ao fim tudo ficou escuro e o céu se fechou.

Uma sombra negra invadiu o centro da clareira e ao se despir da treva se mostrou a mulher perfeita que ele havia visto na casa de chá. Ela lhe sorriu e caminhou em sua direção com os braços abertos, fazendo-o despertar.

Poucas vezes um sonho teve tamanha realidade para ele. Acordou e Amaterasu já estava alta no céu, e a cabeça de Hikari doía. Como acontecia em todos os festivais de Inari, jurou não beber mais. Naquela tarde, Kaoro, foi lhe visitar, e apesar de ele gostar da menina pediu para que a mesma fosse embora, pois não era bem visto que uma moça comprometida permanecesse na casa de um aldeão solteiro. Ainda sim ele não resistiu em perguntar sobre a jovem que havia chegado na noite passada. Sua amiga lhe respondeu que de fato sabia da presença de um grupo de damas, que ela julgava serem gueixas de Hozaka, que se vestiam de forma fina e estavam atraindo a atenção dos homens locais. Ela disse isso com um pouco de ressentimento na voz, mas seguiu seu caminho para casa sem se prolongar no assunto.

Hikari ainda um pouco atordoado resolveu que iria dar um volta pela aldeia e ver o movimento, entretanto ele não possuía muito tempo, pois sua lenha tinha acabado e deveria coletar mais para a noite. Nessa tarde ele decidira que usaria um quimono de seda, de seu falecido avô, e amarrou seu cabelo para que ficasse com uma expressão mais nobre. O lugar estava, como de se esperar, estranhamente tumultuado, com diversas pessoas passando por lá. Ele andou por algumas das tendas que tinham sido montadas, observando a multidão, até que uma delicada jovem lhe tocou o ombro. Ela vestia uma bela roupa vermelha e era relativamente bonita. A moça lhe pediu uma informação e perguntou se ele poderia leva-la até a hospedaria mais próxima. Seu perfume era doce e agradável assim como sua voz, no entanto sua expressão trazia uma fragilidade grande, que Hikari já observava como fraqueza. Ele apontou o caminho para a jovem, mas disse que precisava trabalhar.

Quando chegou em frente ao bosque, se sentiu estranho. Era como ver seu sonho passado. Ele estava logo ali. Dentro das arvores, além das chamas púrpuras. No entanto, ele sabia que era perigoso entrar em um local de Kamis, e prosseguiu seu trabalho, com a impressão que estava sendo observado.

Estranhamente, outras seis mulheres o abordaram ao longo dos dias que se seguiram, cada uma com uma mais bela do que a outra, mas todas com defeitos diferentes que ele usava para justificar sua recusa. Em sua mente, lhe assombrava ainda a imagem da bela que havia visto na casa de chá e desejava aquela perfeição. Ele negava a todas acreditando que somente a sua kitsune lhe preencheria o vazio. E ele decidiu fazer uma vigília no torii, para pedir a Inari que a colocasse em seu caminho. Com uma travessa da melhor safra de arroz que pôde comprar, Hikari se sentou diante do bosque em contemplação, deixando a travessa cheia de um cozido fumegante como oferenda. Ele ouvia o barulho dos Kamis enquanto fazia sua vigília, mas não se atrevia a olhar para dentro do bosque. Ele sentia os pelos de sua nuca se eriçarem quando suavemente, alguma coisa avançava para a entrada do Torii. O som de seus passos eram quase nulos, e mesmo olhando para o outro lado Hikari sentia sua luminosidade. De forma furtiva o kami levou sua oferenda, e em um breve relance, o jovem aldeão contemplou estonteado nove caudas cor de prata desaparecendo no bosque. A esta hora, Tsuki-yomi terminava sua caminhada pelo céu e sua irmã Amaterasu não tardaria a aparecer, ele acabou por cochilar.

Quando chegou a manhã, cansado ele caminhou até sua casa para que pudesse repousar um pouco. Logo perto da entrada havia estranhas marcas no chão, como as pegadas de algum bicho. Ele procurou sua origem e viu que tinham saído do próprio bosque. Ele sorriu e apressou seu passo. A porta estava entreaberta e fez pequeno rangido quando ele a abriu. Mal pode entrar e já sentia um aroma adocicado a ganhar vida no ar, seguiu em direção ao seu quarto e lá finalmente pode contempla-la. A bela mulher se encontrava a sua frente, com sua pele suave e branca e seu coque bem feito. Seus traços divinos eram sutis e emitiam um ar de sedução para quem visse. Ela sorriu com sua boca macia e lábios cor de maçã na primavera.

Ela lhe pediu que se aproximasse, embora não tivesse pronunciado nenhuma palavra. E com seus olhos ferinos ela lhe tocou o rosto e desceu a mão suavemente formando uma parábola em seu peito. Ele apenas era capaz de enxergar a perfeição nela e se deixou levar por todo aquele momento. Não se sentia mais só, e desejava apenas possuí-la. Sentia que aquele instante era o apogeu de sua vida, o motivo pelo qual os deuses haveriam de ter lhe feito esperar por tanto tempo. Era ela. E não existia nada além.

O quimono da moça foi abaixado delicadamente, revelando seios tímidos mas que se excitavam ao toque. E como ele desejou aquele ato! Hikari fez amor por horas, e nada era capaz de o tirar de perto da moça, ele se sentiu em comunhão com alguém pela primeira vez. E pela primeira vez não se negou a felicidade, não censurou a si. E por fim, ele dormiu.

Novamente sonhou que despertava no torii em frente ao bosque, mas nesse sonho ele estava com seu traje de trabalho. Sujo e humilde, como um aldeão deveria ser. Dessa vez ele caminhou pela floresta de forma precavida, desengonçada. Não parecia o mesmo homem do sonho anterior, não se sentiu perseguido, e a floresta, não era um palácio, pois as arvores pareciam naturais, pareciam folhas e troncos, como elas deveriam ser. Ao chegar na clareira, Hikari se encontrou com a mesma cena de seu antigo sonho. Ele ficou paralisado diante das fogueiras, em dúvida se deveria chegar perto. Ele se recordou que na ultima vez, quando todas apagaram a kitsune apareceu, e foi isso que ele desejou.

O homem, com seus trapos e sua deselegância, se aproximou da primeira fogueira, com uma chama vermelha e sua fumaça dançarina, e ela tremelicava na forma de uma mulher. Desta vez a fumaça o abraçou e o envolveu, e o fogo aqueceu suas mãos, a sensação era boa e ele se manteve ali por algum tempo. Nas outras seis vezes o mesmo se repetiu, ele havia aceitado as fogueiras e se sentido aliviado com elas. No entanto, ele sentia a sensação de estar sendo observado novamente. Mais uma vez pode enxergar uma silhueta coberta em treva, que por fim se revelou como a mulher perfeita. Ela portava em seu quimono o símbolo de Inari e de suas costas, nove caudas de raposa a deixavam majestosa. Em seu rosto ela sorria com astúcia, mas mostrava um olhar de inveja, as fogueiras, que ainda se mantinham na forma de mulheres diminuíram com a chegada da kitsune, que mostrava arrogância e superioridade diante das mesmas. Hikari não gostou muito disso e percebeu que estava cego para as fraquezas da moça. Para sua surpresa a intensidade do fogo de todas aumentou assustando a mulher perfeita, que mais uma vez se escondeu e assumiu uma nova forma… Ela era uma grande raposa branca que corria da clareira, com suas majestosas nove caudas. Tsuki-yomi estava encoberto por um véu de nuvens, o que proporcionou a escuridão necessária para que Hikari fosse incapaz de ver sua amante novamente. Após isso, ele despertou.

Mais uma vez sua cabeça doía e era início da noite, seu quimono estava um pouco sujo de pelos brancos. Olhou em volta e procurou a mulher, mas descobriu que estava sozinho. Resolveu que iria à casa de chá novamente, pois estava faminto, ele foi até a sala pegar sua algibeira de moedas quando percebeu que ela havia sumido. Assim como o vazo de seu avô, os grãos de arroz na despensa, os sumiês de sua mãe e as roupas de seda. Ela havia levado tudo. Tudo que poderia ter algum valor. A mulher perfeita o arruinara e agora ele não tinha nada.

Hikari correu para a aldeia e perguntou para várias pessoas sobre a mulher, e ninguém parecia ter a visto. Depois de algumas horas, ele desistiu e resolveu ir até o torii de Inari. Sentado sob o arco, o homem contemplava a sua ignorância. Como ele poderia ser tão idiota a ponto de acreditar que existia uma mulher que era perfeita? Como ele foi tão idiota de se entregar a um kami? Uma kitsune, que era um ser conhecido por sua sedução e astúcia. Elas sempre conseguiam o que queriam, reinos inteiros já foram destruídos pelas artimanhas das mesmas. Kitsunes estavam sempre envolvidas em jogos de sedução e ele havia caído em um. Hikari sempre foi orgulhoso e se achava bom demais para todas as mulheres que ele conhecia, sua arrogância o fez se apaixonar justamente por um Kami. Uma kitsune de nove caudas!

Ele adormeceu por ali mesmo, e quando Amaterasu surgiu no céu aquela manhã, o fez abrir os olhos com os primeiros raios que o incomodavam. Mas há tempo para ver uma bela jovem de vestido vermelho catando água no riacho. Seus traços eram finos mas seu rosto mostrava fragilidade. Ele percebeu a censura novamente correndo em seus pensamentos. Foi quando ele compreendeu, uma garota frágil era tão capaz de faze-lo feliz quanto qualquer outra. Ele próprio não havia sido frágil o suficiente para entregar seu coração para um Kami astuto? E isso o fez sorrir, ele agradeceu a Inari pela lição e se levantou para ajudar a moça em sua tarefa.

Notas:

Esse texto foi escrito originalmente como presente para meu grande amigo de infância Daniel Saito. No momento, a atual versão deste  conto (essa que vocês leram) se encontra em uma cirscuntância inusitada, é possível que venha a ser ilustrada pelo meu ilustre amigo Daniel (este Terra e não Saito) e quem sabe o que pode sair daí?

Por fim, para aqueles que não entendem nada de xintoísmo uma ajuda básica no léxico do texto:

Torii – Uma espécie de portal religioso muito comum no Japão. Geralmente é colocado na entrada dos templos e utilizada para veneração dos deuses.

Kami – Um termo para divindade ou espécie de ser sobrenatural, utilizado para chamar desde os deuses criadores até o mais simples demônio.

Amaterasu – Deusa do sol, nascida das lágrimas de Izanagi (um dos deuses criadores)

Inari – Deus da fertilidade, do arroz e das raposas.

Kitsune – Raposa em japonês, que vai muito além do animal, sendo toda uma classe de espíritos.

Tsuko-yomi – Irmão de Amaterasu, a Lua.

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~ por Olethros em 02/01/2009.

Uma resposta to “Nove-caudas”

  1. […] de 2009 Sei que “Nove-Caudas” é um conto um pouco grande, mas ele faz parte de um projeto importante de compor um livro […]

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