O Sótão

Ela rolava no sofá de sua velha tia, e o ar da casa cheirava como o passado, não aqueles lúdicos e belos dos tempos dourados de outrora, mas o passado das pessoas que se arrependem por não terem feito nada, um passado morto, cinza. Tudo naquela sala parecia sem vida, sem cor, e talvez isso impedisse seu sono. Ela odiava vir aqui, e o temporal lá fora fez com que sua mãe aceitasse passar a noite. Sua tia mais velha não possuía filhos, e vivia na mesma casa onde todos haviam crescido, um dia é claro, todos prosseguiram com suas vidas, exceto por ela, que permaneceu lacrada na mesma parede, como um defunto em um mausoléu.

A menina desistiu de tentar dormir e resolveu dar uma olhada no local que um dia deveria ter estado cheio de crianças (apesar de que essa idéia parecia muito estranha em um lugar tão sem vida) e começou sua andança pela velha casa. Tirou os chinelos para que não fizessem barulho, entretanto as tábuas do assoalho rangiam com o peso das décadas.

No final do corredor, havia uma pequena escada que dava em uma porta que ela nunca vira aberta. A curiosidade motivou seus passos até lá. Pé sobre pé, prendia a respiração enquanto subia para o local que por algum motivo, parecia a atrair. A porta se encontrava fechada e rangeu de forma esganiçada enquanto ela a empurrava.

Não havia luz, e tudo que se podia ver, vinha de uma pequena janela que a lua cheia iluminava. Era um velho sótão, em meio aos brinquedos solitários de crianças há muito crescidas e objetos empoeirados dos quais ninguém se recorda, a menina viu um grande livro, o maior que ela já havia visto, inclusive maior do que ela, e bem mais velho também. A criança se aproximou vagarosamente, pois a escuridão a amedrontava um pouco, e quando se deu conta, estava de frente para ele. A velha capa de couro estava carcomida pelos anos e pelos vermes, mas ainda era possível ler algo como “Histórias Extraordinárias”. Ela abriu o livro e percebeu… Era como uma passagem secreta, o portal ao infinito, um mundo fantástico e colorido detrás das velhas páginas, com aventuras, viagens, emoções e vida, muita vida, como se toda a vida perdida da casa estivesse concentrada naquele único artefato mágico.

Um sorriso foi desenhado em seu rosto enquanto as páginas eram viradas. Seus olhos pesaram se cerraram, e ela se deixou finalmente levar pelo sono… Sorria feliz, pois havia descoberto a infância e os segredos do lugar. Dormia com a certeza de que se repousa sobre uma máquina de sonhos, escondida em um velho sótão, de uma velha casa, que cheirava a passado.

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~ por Olethros em 28/12/2008.

2 Respostas to “O Sótão”

  1. Eu achei que já tinha lido esse conto. Mas o final era outro..

  2. Na verdade não… esta ainda é o conto que eu escrevi para ilustrar uma foto sua lembra… aquela do livro gigante?

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