Aqui habitam dragões

“Aqui habitam dragões” foi tudo que pude ler. Antes não tivesse conseguido. Aquela simples frase me deu calafrios inspirados e sonhos tortuosos. Meu pai iria ver dragões? E ainda por cima não iria me levar? A pior coisa do mundo deveria ser esse sentimento: frustração, misturada com ansiedade., de ser tão criança, tão pequeno que nem se pode adentrar em uma Caravela.

Aquela havia sido minha primeira visita à escola de meu pai, na qual ele gastou mais da metade de sua vida. Era tudo tão moderno, tantos aparatos mecânicos!!! Bússolas, astrolábios, balestrilhas e coisas que eu nem mesmo poderia imaginar a função que possuíam. Haviam inventado navios que viajavam tão rápido que podiam ir contra o mais violento vento. A escola de Sagres era, acima de tudo, um local onde milagres aconteciam, e – se me permitem dizer – parecia um lugar mágico.

Eu observava as pessoas que lá trabalhavam, todos grandes gênios, embora facilmente separáveis em duas categorias. Em primeiro lugar, haviam aqueles tímidos debruçados sobre suas anotações, alheios à vida que os circundava. Muitos apresentavam uma barba grossa e eu desconfiava que fossem Mouros. O outro tipo, mais parecidos com meu pai, eram “crianças com brinquedos”, era possível observar sua felicidade durante as descobertas, sua ansiedade pelas explorações. Assim como eu me sentia. Pude perceber também que alguns homens pareciam Judeus, mas que pareciam se dar bem com os demais.

Depois de cumprimentar muitos barbudos rabugentos, meu pai e eu subimos uma estreita – porém longa – escadaria, a qual findava em uma pequena porta. Papai pediu que tudo o que eu visse ali dentro permanecesse em absoluto sigilo, que eu não ousasse sequer em pensar no que visse. Disse que chegaria minha hora, e aprenderia a compreender o porque de tal segredo. Eu, é claro, fiquei um tanto curioso e assustado. Entrei com passos muito leves, a sala estava bem iluminada, graças às grandes janelas duplas que se abriam em uma parede inclinada. Percebi que devíamos estar em uma espécie de sótão que não daria para ser visto por alguém de fora da escola.

À minha frente estava o grande segredo de Sagres, seu tesouro mais precioso: seus mapas. Havia centenas deles, cada um enfocando uma parte diferente, outros gerais, mas com aspectos estranhos. Todos pareciam concordar em uma coisa: a oeste do mar Tenebroso, em um lugar além das Canárias, estava escrita a frase que mudou minha vida: “Aqui habitam dragões”.

Para um menino de 9 anos, um lugar onde adultos escrevem tais coisas deve ser levado muito a sério. Pensem bem, um reino com dragões de verdade? E com todas as outras maravilhas já vistas nos reinos dos negros, como o Elefante ou os gigantescos Peixes-cavalo? Aquilo era um pedaço de sonho para uma criança com minha idade na época. É como D. Henrique sempre desejou, aumentar-se-iam as fronteiras de Portugal, e eu conheceria o mundo e viveria aventuras.

Aquele dia com certeza havia marcado minha vida. Uma semana depois, meu pai partiu para o mar, fazendo o que amava. Eu me lembro de como o porto estava cheio, e o quanto eu estava revoltado por não poder ir. As mulheres acenavam para seus maridos com lágrimas nos olhos, a crianças menores não entendiam o que estava acontecendo, e as da minha idade, suspiravam ao ter pensamentos como o meu.

D. Henrique estava majestoso, embora simples. Seu bom humor irradiava uma certa segurança para todos nós. Ele parecia não temer nada, e eu me perguntava quantos dragões ele havia matado para conseguir tamanha confiança.

O poderoso Henrique contra a serpente marinha: que luta fantástica! A grande serpente joga água nas armas de fogo, deixando os homens impotentes. Ela os devora, um a um, até o Infante sacar sua espada. Ela tenta mordê-lo, mas este se desvia, fazendo com que o monstro bata com a cabeça no mastro. Aproveitando o momento, D. Henrique crava a espada no dorso da serpente, salvando sua vida e o Reino de Portugal.

Os Cavaleiros de Cristo imitavam São Jorge em seus feitos. Em meus sonhos, dragões lutavam e caíam sobre a bandeira da Cruz de Malta. Em meus sonhos, eu era o cavaleiro destemido que desbravava o mar em busca de aventuras. Eu era invencível, extraordinário. Até que voltei ao porto. Os homens partiram, as mulheres choraram, e um pedaço de mim, maior do que imaginava, também rumou para o oeste.

Eu passei aquela noite sonhando com meu pai, poderoso Fidalgo do Porto. Imaginando seus feitos, e a fama que ele teria ao retornar cá. Ele pegaria o anel mais belo do tesouro do dragão, e traria para minha mãe, formosa dama pela qual ele se apaixonou.

Imaginei-a como uma princesa que precisava ser resgatada, assim como cantavam os trovadores. Que sua beleza era exaltada no alto de uma torre. Meu pai, de armadura prateada em um cavalo branco, gritaria:

“Quer’eu en maneira de proençal
fazer agora un cantar d’amor
e querrei muit’i loar mia senhor,
a que prez nem fremusura non fal,
nen bondade, e mais voz direi en:
tanto a fez Deus cumprida de ben
que mais que todas las do mundo val.”

E eis que sua voz despertaria o nefasto Lagarto Rei, com seu bafo flamejante. Mas meu pai, homem forte, defenderia sua amada até a morte e doravante. Uma vez vencido o dragão, ela saltaria para os braços de papai em um instante.

Ai, que sonho belo que eu tive aquela noite. Ele até rimava! Como havia sido fantasioso! O que um pedaço de papel não poderia fazer com a minha imaginação? Todos os lugares pareciam mágicos. O mundo me pareceu um lugar melhor. Tudo tinha mais vida, mais mistério, mais cor.

Meus colegas caçoaram de minhas fantasias, é claro, não pude lhes dizer a verdade sobre para onde nossos pais haviam partido, afinal, eu jurei segredo. Mas como eram bobos aqueles meninos. Eles nem desconfiavam das aventuras que estavam perdendo. Não entendiam nada de heroísmos, ou de dragões. Suas vidas com certeza eram bem menos divertidas que a minha.

Certo dia, o pai de meu colega Pedro faleceu de sífilis, uma doença muito boba e comum. Pedro passou dias sem aparecer para brincar. Eu fiquei sinceramente preocupado com ele, e fui fazer uma visita à sua casa, um caminho longo até os limites da cidade.
Lá estava o pequeno, chorando ainda, e eu decidi animá-lo, passando alguns dias com ele. Contava-lhe a respeito de meu mundo, minhas histórias, meus heróis e dragões. E, de certa forma, a cor de minha fantasia infectou um pouco o triste Pedro, que passou a inventar histórias comigo.

Aquilo se tornou nosso passatempo preferido. Passávamos dias a contar histórias aos outros garotos, e era sempre muito divertido ver suas reações. Nossas tramas se intercalavam, e acabamos criando um gigantesco mundo mágico, onde habitavam nossos já “clássicos” personagens.

Havia o Parsival – cujo nome eu havia roubado de outras histórias -, o cavaleiro verde. Tinha Maria, a donzela em perigo, que vivia na torre de Cicatriz, o dragão dos ares. A Arcádia e os seres-fada. A terra negra dos elefantes selvagens e peixes-cavalo. E claro, tinha o mar tenebroso e seu ninho de dragões e serpentes marinhas. Enfim, era um mundo completo. Era o meu mundo, criado a partir de uma frase em um mapa, escondido no sótão de uma escola distante.

Certo dia, durante uma chuva terrível, um homem bateu à porta de minha casa. Minha mãe desatou a chorar. Eu logo compreendi o que era. Meu pai, assim como os pais de muitos dos meus colegas, não iria retornar. Eu abracei minha mãe, e jurei protegê-la. Eu seria o seu novo cavalheiro a partir desse momento.

O dia seguinte havia sido terrível: meus amigos choravam as perdas de seus pais, eu também estava triste, embora tenha lidado com a notícia de uma forma bem melhor que os outros. “Meu pai morreu em um naufrágio”, diziam uns, “O meu morreu de fome numa ilha”, diziam outros. E por esse motivo eu estava me sentindo melhor, porque eu era o único que lá no fundo, sabia a verdade. Era um segredo que eu jurei guardar. E eu me orgulhava muito do real acontecimento: meu pai morreu lutando contra o Rei dos Dragões, no centro do Mar Tenebroso. Não havia como não me orgulhar de seus feitos, afinal, quantos garotos no mundo podem dizer que seu pai foi morto por um dragão?

E foi assim que o Cavaleiro da Cruz de Malta, João Francisco – meu pai – entrou no meu mundo de sonho, e também no de Pedro, como no dos demais garotos. Sua bravura lembrada para sempre, sua espada marcada na face do Dragão, à moda de Aquiles, ele venceu a morte para viver além da mesma.

Nota Histórica:
O verso citado no texto é de D. Dinis, um dos mais conhecidos  trovadores de Portugal! A escola de Sagres, de acordo com a maioria dos teóricos no assunto, não possuía uma sede fixa, e sim várias ramificações. D. Henrique foi conhecido como o príncipe explorador e se envolveu em várias expedições ultramarinas. Até hoje um dos mais glorificados reis portugueses. O conto se passa na metade do século XV.

Este é um conto antigo, mas que se encontra entre meus favoritos. Ele tem algo de um apelo infantil inocente e fantasioso no qual sinto falta.

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~ por Olethros em 22/12/2008.

8 Respostas to “Aqui habitam dragões”

  1. Esse eu conheço de alguns anos…

  2. E sobreviveu graças a você, que guardou ele e me repassou quando meu HD foi pro espaço, portanto, obrigado por isso. E Aguarde por coisas novas, ainda que é importante notar que este conto foi todo reeditado…

  3. Aww, que bonitinho. 🙂

    Eu sei que é um comentário meio idiota, mas me identifiquei com o garoto, porque quando eu era menor (pequena eu ainda sou) costumava também inventar mil estórias, normalmente antes de dormir. Fora que a ambientação passou muito bem o “clima”, e a focalização no garoto ficou muito bem feita. 🙂

  4. Obrigado pelas palavras gentis allana, e não tem nada de idiota no comentário.

  5. Oi eu estive aqui 😀

    E legal o conto. Será que o menino vai narrar D&D quando crescer?

  6. Sim, como sempre, existe uma referência bastante grande ao RPG…

  7. Felipe, pode parecer abusado, mas dá uma passada no meu blog depois, quando você tiver um tempinho. 🙂 Abraço e feliz Natal! 😀

  8. É só enviar o endereço que o farei com prazer…

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